Caché

Caché ★★★★

Será que eu sou a única pessoa a achar que A Professora de Piano (este também está na minha lista de que jamais vou rever) é o melhor filme do Michael Haneke e não Caché? Mas isso é uma escolha meramente emocional, não quer dizer que no resultado geral Caché não seja um filme melhor, só que La Pianiste é mais intenso não apenas na construção da narrativa como na visceralidade de uma das melhores atrizes do mundo de hoje e sempre: Isabelle Huppert.
A grande intensidade de Caché recai na construção de personalidade da personagem de Daniel Auteuil, alguém cínico, insuportável, insensível, há muito tempo não sentia tanta antipatia por uma personagem como essa sua em Caché, a ponto de querer que o filme acabe logo por não conseguir mais aturar tamanho ser desprezível. Talvez achem que estou exagerando, que aparentemente ele nem é tão intensamente insuportável assim e que de qualquer forma ele estava camuflando superficialmente todo e qualquer remorso que ele pudesse ter por fazer mal a uma pessoa, mesmo o subconsciente através de seus sonhos dando indícios de que a coisa não era bem assim. Mas não estou exagerando quanto à minha perspectiva em relação a ele, não mesmo, porque 90% das pessoas consideradas “normais” (estou excluindo sociopatas e psicopatas, é claro) age com essa insinceridade consigo, fazendo mal às outras pessoas porque isso é considerado “inteligência” pelo arcaísmo ocidental (será que foi coincidência um muçulmano argelino ser fodido por um francês ou é mais uma crítica histórica ao passado negro da França?) e à noite têm pesadelos que nem sempre se lembram sobre o que são (que falta faz um psicanalista pra fazer chorar, hein?). Não estou me referindo à sua personagem criança como muitos podem erroneamente pensar, estou me referindo ao adulto, aquela criança ciumenta, cruel e egoísta tornou-o um homem aparentemente insensível, paranóico e empaticamente deficiente, perito na, como diria Bergman, “Arte de varrer para debaixo do tapete”.
De qualquer forma Caché é um filmão, aliás, Haneke é o cineasta com maior capacidade de colocar as pessoas nos seus devidos lugares no cinema atual, seus filmes são chicotadas atrás de chicotadas. O homem é um sádico realista. Veja sua obra e descubra o quão ignóbil você (e o outro - o outro você ou o outro refletido em você) é e tente ter orgulho disso.

Nota: Estou na minha habitual depressão profunda de janeiro e cansada de todo mundo achar bonito e inteligente ser insensível. E já que citei o Bergman e o Sartre acima, tenho que citar outro grande intelecto do século XX: “Make donuts, not war” – Homer Simpson. Se bem que eu preferia uns brioches, hein?

Postado no blog Quixotando em 19 de janeiro de 2007.

Block or Report