Kingdom of Heaven ★★★★★

Não há muitos filmes em que o corte do diretor realmente mude o significado da história e da narrativa. “O portal do paraíso” talvez seja o mais representativo, em razão da polêmica que cercou a versão imposta pelo estúdio inicialmente da obra de Cimino. E há os cortes com os quais os diretores não concordam, como aquele de “Duna”, nunca aceito por David Lynch. Nos últimos anos, talvez não haja outro corte novo tão significativo quanto o de “Cruzada”, feito por Ridley Scott. A duração original tinha 144 minutos e a que saiu em Blu-ray tem 194 minutos, ou seja, quase uma hora de acréscimo. O original tinha grande qualidade, mas era irregular; Scott, por meio dessas cenas novas, mostra realmente um épico. Talvez essa diferença não funcione com todos, talvez eu tenha visto a primeira versão em uma época em que esperava mais, e hoje esse gênero de filme parece mais raro; particularmente, o novo “Cruzada” é extraordinário, um dos melhores momentos na trajetória de Scott.

O filme inicia em 1184, mostrando um ferreiro, Balian (Orlando Bloom), na França, às voltas com a perda recente da esposa. Chega à sua cidade o Barão Godfrey de Ibelin (Liam Neeson), que lhe pede para que o acompanhe em direção à Terra Santa e para que sirva ao Rei de Jerusalém, Rei Baldwin IV (Edward Norton, escondido atrás de uma máscara de ferro), assessorado por Tiberias (Jeremy Irons). Além disso, o rei é irmão da princesa Sibylla (Eva Green), que se interessa por Balian, enquanto seu marido Guy de Lusignan (Marton Csokas) investe contra os muçulmanos com a Ordem dos Templários, dando início a uma guerra de Jerusalém contra Saladino (Ghassan Massoud). Esta é a linha principal do roteiro, que desenvolve durante mais de três horas uma narrativa realmente atrativa.

Dizer que “Cruzada” tem elementos de “Gladiador”, filme anterior de Ridley Scott, é bastante evidente. Mas eis um filme em que realmente a fotografia, de John Mathieson, faz uma diferença imprescindível, auxiliado pelo fabuloso desenho de produção. Se Orlando Bloom se entrega com certa dificuldade ao papel principal – e seus conflitos são dificilmente externados, embora algumas vezes o roteiro seja responsável por isso –, Scott selecionou um grande elenco coadjuvante, não apenas Norton, Irons e Massoud, mas Eva Green em um dos momentos de início de carreira mais exitosos, ainda sem os maneirismos que recentemente adotou para personificar suas vilãs. Sua personagem em “Cruzada” é possivelmente a mais elaborada do roteiro, adotando uma dualidade estranha, e, ao mesmo tempo que tenta ser sedutora, é abalada pela tragédia. É Green quem conduz com talento as cenas com Bloom.

Já Scott filma não apenas cenários do Oriente Médio com um talento impressionante, como faz uma batalha final (de em torno de 40 minutos) com a mesma persuasão de Kurosawa em “Ran”, como apontou certa crítica. Não estamos mais no meio da fantasia, mas de uma reprodução da história poucas vezes igualada na história do cinema. Com este filme, também se conclui que os anos 2000 não ficam para trás dos anos 70-80 na qualidade dos filmes de Scott: “Cruzada” forma um número de filmes muito interessantes, ao lado de “Gladiador”, “Falcão negro em perigo”, “Os vigaristas” e “Rede de mentiras”. É ótimo descobrir um novo filme dentro de um antigo uma década depois.