Sully ★★★★

O diretor Clint Eastwood tem dirigido alguns dos filmes mais interessantes da última década com um estilo sóbrio, particular e afastado de seus momentos como Dirty Harry ou justiceiro do velho oeste - uma imagem já rompida, é verdade, em seu ótimo "Os imperdoáveis". Nesses últimos anos, ele fez algumas cinebiografias, em "J. Edgar", "Sniper americano" e "Jersey Boys", tendo acertado mais neste último, mostrando com rara eficácia a banda norte-americana. E "Sully" ingressa entre seus acertos, muito por causa da atuação brilhante de Tom Hanks como Chesley "Sully" Sullenberger, o piloto que conseguiu evitar um desastre, pousando um avião, cujas turbinas são atingidas por aves, no Rio Hudson em 2009.

Trata-se de uma história documentada e recente, com uma linha de narrativa que poderia se tornar convencional pela sua curta duração. Sully tem como parceiro Jeff Skiles (Aaron Eckhart), e ambos, depois do acontecimento, passam a ser investigados pelo National Transportation Safety Board (NTSB), responsável em descobrir se tudo se deu conforme a boa decisão do piloto experiente ou por um ato de Deus. Para realizar o julgamento, surgem Charles Porter (Mike O'Malley), Elizabeth Davis (Anna Gunn) e Ben Edwards (Jamey Sheridan), enquanto Sully tenta acalmar a mulher, Lorraine (Laura Linney) , sem poder de fato vê-la por causa dessas investigações.

Clint Eastwood transforma o que poderia ser uma espécie de documentário em uma história fascinante sobre um homem que, para tentar salvar a vida de centenas, colocou em risco o que ele mesmo havia seguido durante sua trajetória. Com idas e vindas no tempo, Eastwood vai atraindo o espectador para uma espiral que parece apenas dedicada a prestar uma homenagem, quando recupera, na verdade, a consciência de um homem diante das ameaças históricas, principalmente quando ele tem algumas visões assustadoras. É também sobre a humildade de um herói do cotidiano, personificada com raro talento por Tom Hanks, num momento que se equivale ao seu subestimado "Um holograma para o rei". Hanks concede uma calma sábia a seu personagem sem nunca parecer se exceder em sua timidez, enquanto Eckhart volta em grande estilo a um papel realmente de destaque.

Em alguns momentos, mesmo pela própria temática, o filme lembra "Voo", com Denzel Washington. Se lá Zemeckis conseguia criar uma história decisivamente interessante, aqui Eastwood consegue expandir seus fatos para algo decisivamente emocional, mesmo que às vezes pareça seco e até com certa frieza. A fotografia de Tom Stern consegue fazer um ótimo elo de ligação entre o acontecimento e a vida posterior de Sully, com sua ida, por exemplo, ao programa de David Letterman. É uma obra sobre se tornar uma referência para milhares de pessoas quando, na verdade, se quer provar apenas que tomou a decisão correta. É, enfim, uma obra sobre alguém se transformar numa referência para si mesmo.