Beanpole

Beanpole ★★★★

Os russos sabem desgraçar nossa cabeça.

Se Vá e Veja, de Elem Klimov, é um dos retratos da guerra mais cruéis que a Rússia, à época ainda soviética, deu ao cinema, este Uma Mulher Alta é um dos dramas pós-guerra mais depressivos dos últimos anos e se destaca não só pelas cenas dolorosas - física e emocionalmente - que exigem estômago e sangue frio do espectador, mas também por ser contado pelo viés feminino, algo raro em filmes do tipo.

Inspirado pela leitura de "A Guerra Não Tem Rosto de Mulher", da escritora Svetlana Aleksiévitch, o diretor Kantemir Balagov, ao lado de Alexandr Terekhov, roteiriza uma história original de duas mulheres que lutaram na Segunda Guerra Mundial e voltam para casa em busca de alguma esperança, porém o verde da bela fotografia de Kseniya Sereda não é o dos vales e o vermelho não é do amor. Vazios precisam ser preenchidos, dores precisam ser remediadas, mas as memórias talvez nunca deixem de ir. E numa cidade em ruínas e com seus corpos machucados - e vazios por dentro, como diz Iya- como se reconstruir?

Pré-indicado russo no Oscar 2020 e vencedor do prêmio de Melhor Direção e o Prêmio da Crítica na Un Certain Regard no Festival de Cannes deste ano, Uma Mulher Alta é situado numa Leningrado degradante. Lá, a tímida Iya (Viktoriya Miroshnichenko) trabalha em um hospital para veteranos de guerra enquanto cuida do filho da amiga Masha (Vasilisa Perelygina) que retorna do front querendo reencontrar o filho e viver os prazeres - se é possível chamar assim - que a guerra lhe privou. Devido a uma condição de Iya, um trauma pós-guerra que a faz congelar por alguns minutos, algo grave acontece impactando diretamente na vida das duas amigas e trazendo um fardo ainda maior que já carregavam.

Sem facilitar nada ao espectador, empregando um ritmo cadenciado, uma câmera próxima às personagens, ausência de trilha sonora incidental - o apelo está muito mais nos passos, nas madeiras rangendo e no som sufocado emitido por Iya em suas crises - Balagov nos embarca em sua diegese de forma traumática e dolorosa contando mais uma das tristes histórias - quase invisíveis - da guerra.

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