45 Years ★★★★★

Em uma cena no meio de 45 Anos, Kate Mercer, a personagem de Charlotte Rampling, mira a escada para o sótão. Os sons do vento e a porta que se movimenta lentamente atrás dela parecem indicar que ela não está sozinha ali. Katya, uma jovem que namorou seu marido há meio século e que morreu nos Alpes Suíços, sumindo para sempre, a assombra em cada cômodo da casa.

Por mais estranho que possa parecer, 45 Anos é muito próximo de uma história de fantasma. Após a carta que chega informando a descoberta do corpo, conservado no gelo, cinquenta anos depois de seu desaparecimento, o marido de Kate, Geoff, entra em um processo de escape em suas memórias, que o levam a uma introspecção que chega a confusão e ao isolamento. Porém é Kate a mais afetada, perdida em seus pensamentos que confrontam o ciúmes por uma jovem morta a qual ela nunca conheceu, mas que inegavelmente rouba seu marido.

O filme anterior de Andrew Haigh, Weekend se passa nas 48 horas de um final de semana em que um encontro sexual eleva dois desconhecidos para o status de amantes. Os dois dias que aquele casal passa juntos são o suficiente para torna-los íntimos um do outro, com histórias para contar por uma vida. Paradoxalmente, 45 Anos vai para o outro lado, e indica que mesmo depois de décadas juntos, um casal ainda pode descobrir que são completos estranhos um para o outro. Porque Geoff não revelou coisas sobre Katya a Kate antes disso tudo?

O maior tema de 45 Anos é devastador, e indica que o casamento, embora baseie-se em sentimentos recíprocos e momentos juntos, consiste em basicamente duas pessoas isoladas. No decorrer da semana em que ocorre 45 Anos, os cinco dias de preparação para a festa de comemoração do casamento de Kate e Geoff, há muito diálogo, mas pouco é dito. Muito do que vemos em tela é apenas sugerido. Enquanto Tom Courtenay é um ator que explora e exibe o quão afetado o seu Geoff se torna, com tremuras e toques bobos, movimentação lenta e perdida e fala arrastada; é Rampling, porém, que brilha. Sua Kate é rígida consigo mesma, e mistura um olhar preocupado e terno pelo marido com a suspeita e o temor. A transformação de suas expressões, de sua rigidez e até mesmo de sua voz são sutis, mas arrasadoras. Rampling dá a melhor performance do ano, em uma devastadora experiência.

Passadas a uma hora e meia de filme, parece que conhecemos o casal por uma vida inteira. Haigh é sutil, nunca invasivo, e minimiza toda a narrativa. Não há subtramas, nem cenas desnecessárias. 45 Anos é um filme focado em Kate, e em como ela percebe uma vida alternativa da qual ela não teria feito parte. Que percebe, quase que no último momento, que a ligação que ela construiu por anos com o marido, não passava de uma ilusão. Nada mais acertado então, em um filme que se preocupou tanto em exibir ela sozinha em quadro — porém sempre indicando uma “presença” a acompanhando — que em seu plano final, Kate esteja no meio de um salão lotado. Ali, porém, ela finalmente está sozinha. Olhando para seu marido e para tudo aquilo que pareciam ter construído. O olhar de Rampling exala um sentimento que ainda não há definição. Como se existisse fumaça em seus olhos uma vida inteira, ela finalmente viu a verdade.

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