Before Sunset ★★★★★

Eu me apaixonei no verão. Eu lembro como se fosse ontem, porque parece que foi. A gente caminhava pela rua e apresentava nossos lugares favoritos do centro um pro outro. “Aquela escadaria legal”; “esse canto do porto”; “o terraço desse prédio”. É estranho como é se abrir pra uma pessoa desse jeito, deixar ser descoberto. Eu não sei tu, mas eu tenho uma mania de fingir ser alguém pra cada pessoa. Pros meus amigos da escola, eu era isso. Pros colegas de trabalho, aquilo. Pros colegas da faculdade, essa outra coisa. Eu sempre achei que era porque eu não sabia exatamente quem eu era, então eu inventava aquilo que eu queria ser (“quando conhecemos alguém vemos aquilo que separa quem somos do que queremos ser”, como Andrew Haigh traduz tão bem em Weekend).

Não me leve a mal, eu amo mentir. Faz bem, me deixa feliz contar uma história e ir moldando ela de acordo com quem ouve. É libertador não ser preso pela realidade. Ao mesmo tempo, naquele dia quente de verão, eu finalmente fui quem eu acredito ser. É estranho perceber que finalmente tu se reconhece quando se depara com alguém que tu ama.

Tem esse sentimento em Antes do Pôr-do-sol, que esses dois personagens têm essas vidas moldadas que são importantes para eles manterem em pé — afinal, eu acredito, nós somos feitos tanto de verdades quanto se mentiras. É importante manter esse casamento, Jesse argumenta, porque a vida saudável do filho supostamente depende disso (e, também, como ele revela mais adiante, porque ela reflete o Homem Idealiado que Jesse acreditava ser). Céline é forte e decidida, e namora um homem que ela não precisa ver muito tempo porque ela mesma não aguentaria expressar tanto sentimento, uma caracteristica que ficou na Céline de Viena, em 1994. Quando Jesse olha pra Céline, no barco, dá pra sentir que aqueles dois jovens que pularam do trem há nove anos voltaram ao presente. Não só o calor do verão parisiense, mas o calor da proximidade. De ver alguém que conhece aquele seu eu verdadeiro. É bom de rever alguém que permaneceu na sua mente todos esses anos — e aquele pedaço de si mesmo que acompanhou o outro até ali.

Não tem nada mais honesto em Antes do Pôr-do-sol do que essa urgência de Jesse e Céline em por em dia tudo aquilo que vivenciaram nesses anos todos. Eles precisam se completar de novo. O que o Jesse de 94 pensa do Jesse de 2003? O que a Céline que dispensou o emprego no governo para lutar por algo mais próximo tem que observar naquela que acreditou no papo da máquina do tempo de um estranho? “Finalmente”, pros dois. “É hora de se reconhecer”. Antes do pôr-do-sol é uma vitrine pra capacidade de Linklater em transformar diálogos extremamente expositivos naquilo que parece ser a única coisa a se dizer naquele momento, e atravessa o relato do dia-a-dia dos seus personagens até a descrição mais íntima dos seus pensamentos e de suas visões de mundo porque Jesse e Céline precisam saber. Eles precisam completar esses espaços na mente deles. Eles precisam se reconhecer.

Como tudo que é bom na vida, esse amor que começou no verão terminou uns tempos depois. Revendo Antes do pôr-do-sol com ele hoje de tarde deu aquele exato sentimento de vergonha e de ternura. Vai ver porque nós nos tornamos grandes amigos, ou porque um deixou uma parte com o outro, e precisamos ficar em dia com nossas vidas. Como Jesse e Céline ao tomar um chá e saber exatamente o que o outro está pensando, são nesses momentos que eu reconheço quem eu sou. Com mais ninguém, em nenhum outro lugar. Voltarei pros cenários que eu monto pras outras pessoas depois, mas nesse lugar, nesse instante, não precisa de palavra nenhuma pra ser quem é. O momento permanece como o calor do verão na pele. Dá pra sentir só de lembrar.

Arthur liked these reviews