Eighth Grade ★★★★

Olhando agora, meus pais fizeram um bom trabalho. Eles chamam de sorte por eu ter sido uma criança calma e que aceitava tudo o que eles me ofereciam, mas meus pais sempre se preocuparam em não assustar demais uma criança eternamente assustada como eu fui. O mundo é grande e assustador, mas eu demorei pra perceber isso: meus pais escolheram a dedo os livros que liam pra mim, os filmes que eu via, os jogos que eu jogava. Eles me ofereciam uma lógica, uma expectativa que o mundo poderia cumprir até ali, mas algo que, conforme eu fosse crescendo, iria perceber que era uma visão limitada, uma simplificação de um mundo que geralmente não faz sentido, não é necessariamente justo e que as vezes é grande demais pra gente suportar. Eu fico imaginando a ginástica que eles devem ter feito pro baque da internet, que chegou quase que de repente na nossa casa, não me pegar de surpresa, porque ao ver Oitava Série eu me não pude parar de imaginar que a gente tentou resolver o problema da falta de informação com a internet e acabou causando outro: o pânico.

Ter acesso a toda essa informação é libertadora, é verdade, mas Oitava Série cria um belo argumento de que ela também ajuda a alimentar uma ansiedade frequente. A crueza do filme me pegou de surpresa nesse sentido. É quase desesperador ver a jovem Kayla, na última semana da oitava série do ensino fundamental, ter que lidar com tanto ao mesmo tempo: a ansiedade de não ter realizado nada no ensino fundamental, o medo de não realizar nada no ensino médio também, a descoberta do desejo, o medo secreto de não ser uma filha que deixe o seu pai feliz o suficiente.

Oitava Série não esconde o jogo. Kayla (Elsie Fischer, na minha atuação favorita esse ano) precisa manter o terrível jogo de aparências da escola ao mesmo tempo que precisa se encontrar, seja lá o que isso significa (e o filme sugere que isso nem existe, na verdade). É quase cruel ver o seu dia na escola, doloroso ver seu jantar com o seu pai, e de partir o coração quando um dia que devia ter dado certo acaba dando errado. Kayla quer muito encontrar esse algo que parece que o mundo oferece, mas ela não sabe direito o que é, e Oitava Série questiona se isso realmente existe de alguma forma. Ao mesmo tempo, o filme sabe o quanto essa conexão constante, esse fluxo de informação existe pra solucionar muitas das outras ansiedades de Kayla. Mas quando que os benefícios vão superar os obstáculos?

É reconfortante que Oitava Série nos oferece um momento de compreensão, quando o pai finalmente pode explicar pra filha o quão sortudo ele é. Ela enfrenta algo muito mais difícil do que a gente jamais pode imaginar (e as gerações que vêm depois da de Kayla eu não consigo ter nem noção). Ter uma resolução — Kayla encontrar qual o próximo passo, ou entender o mundo que a espera — seria contra a franqueza de Oitava Série, então ele nos oferece esse momento de aceitação. Algo que eu tive sorte de ter que aceitar só muito depois na minha vida, mas que Kayla teve que aprender mais cedo, sozinha em um mundo casa vez mais unido em sua solidão.

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