Once Upon a Time... in Hollywood ★★★½

This review may contain spoilers. I can handle the truth.

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Enquanto eu assistia Era uma vez… em Hollywood eu ficava me perguntando o tempo todo que história ele tava tentando me contar. É sobre um ator de faroeste no fim de uma etapa da sua carreira? É sobre o seu dublê, que tá ainda mais no fim da carreira? Foi a primeira vez que eu me senti perdido em um filme do Tarantino, em que eu não encontrei uma linha narrativa central para entender onde o filme queria chegar.

Eu acho que agora, pensando melhor, isso foi muito bom. Era uma vez… tá mais preocupado em ser algo do que quer chegar a algum lugar. Não é uma jornada de vingança como Kill BIll, ou uma missão especial como Bastardos Inglórios. Não existe um objeto que norteia a trama como em Pulp Fiction nem uma personagem central forte como Jackie Brown. Em Era uma vez…, Tarantino esmiuça uma era do cinema americano (e dos Estados Unidos como um todo) que estava chegando ao fim, e observa o que restou dela.

Por um lado isso me deixou perdido. Foi difícil me grudar em Era uma vez… como eu fiz nos outros filmes do Tarantino, de sentir que eu estou sendo guiado por um grande contador de histórias e que, não importa onde ele vá ou que curvas ele faça, a viagem vai fazer valer a pena. Durante muitos momentos eu fiquei me perguntando se eu deveria estar prestando atenção nas pessoas com quem os personagens falam ou que papeis eles aceitam, caso isso tivesse alguma relevância na trama. Eu passei uma boa parte do filme achando que era preâmbulo, quando na verdade o filme já tinha dado a largada.

Por outro lado, porém, Era uma vez… se revela como um Tarantino no auge da sua força como diretor, em que ele se permite levar a história para qualquer lado que entender ou que achar necessário, esquecer de personagens por dezenas de minutos e retornar a eles. Em um ano tão ruim para o cinema americano como foi 2019, como é bom ver um filme que se estende, mas que não se demora, porque embora não tenha um guião narrativo, ele é guiado pela precisão formal de seu diretor e uma confiança de que seus espectadores estão dentro da jogada. Das referências aos filmes e músicas à um desenho de produção fantástico, tudo se encaixa em um filme que só espera as coisas acontecerem. Isso resulta em algumas das sequências mais fantásticas que Tarantino já fez, como a que o dublê Cliff (Brad Pitt, que tá fantástico) visita o rancho de Mason, em que o diretor molda a tensão milimetricamente; ou em que Rick (Leonardo DiCaprio, fazendo o seu melhor Brad Pitt possível) arrasa em uma cena de vilão. Era uma vez… nos mostra que esse é o fim dessa Hollywood e desse ator, e mesmo em seu pior estado eles ainda entregavam algo brilhante uma vez e outra.

Mas pra mim a chave do filme é a presença de Sharon Tate (Margot Robbie, que entrega muito com muito pouco). Enquanto assistia Era uma vez… eu ficava o tempo todo pensando onde a “trama” de Tate vai se encontrar com a de Rick e Cliff, quando na verdade ela existe nessa realidade alternativa de Tarantino como um marcador da nossa realidade. Nós sabemos o que as datas, a mansão em Cielo Dr. e a (breve) aparição de Charles Manson significam, e como o assassinato brutal de Tate demarca o fim dessa Hollywood que o filme resgata. Com ela estando na sala de cinema, vendo como sua promessa como atriz se realiza na tela — na minha sequência favorita do filme, e talvez da carreira do diretor —, e sobrevivendo ao final da (única sequência) violência que demarca o fim do filme parece indicar como Era uma vez… é na verdade Tarantino lutando com sua própria relação com aquela época, em fazer uma última homenagem à uma atriz que teve sua carreira interrompida.

É a presença de Tate, e o carinho que Tarantino dá à sua personagem, no fim, que faz Era uma vez… em Hollywood seu filme mais melancólico, mas talvez o mais emocionalmente rico. Acho simbólico que a violência, que é um marco do diretor, não recebe o mesmo interesse nesse filme. Ela está de passagem, e quando explode no final ela acaba, não reverbera em mais violência. Não foi assim que aconteceu, e quando a voz de Tate aparece no interfone, ela até parece que vem do céu. Quando Rick finalmente conhece Tate, a Hollywood de Tarantino acaba, mas talvez tenha a chance de se transformar em outra.

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