Pépé le Moko ★★★★

Eu sou péssimo assistindo filmes em geral. As vezes eu me apego a um pequeno detalhe pra tentar resumir um filme inteiro e acabo perdendo todo o ponto dele. As vezes eu tenho preguiça demais de assistir um filme mais antigo como O Demônio da Argélia, porque eu prevejo que vou ter que fazer um alongamento grande demais pra conseguir ter empatia por uma época e local distantes de mim.

Acaba que eu sempre me impressiono com filmes como O Demônio da Argélia, porque eu nunca preciso fazer um esforço tão grande quanto o que eu fico imaginando. Filmes como esse são completamente cientes de seu contexto, e é refrescante ver como eles expõe, dialogam e contrapõem a cultura que os cria. Aqui, é na forma de Pépé, um homem procurado — tanto pelas mulheres que ele seduz, quanto pelos policiais que o querem morto — que vive na Casbá, uma cidadela que, como o narrador diz, parece uma escada que dá para o mar. Desde a primeira vista, a Casbá é um lugar acolhedor na medida que a sua pluralidade cultural permite, mas é sempre um lugar lindo e vivo, que brilha no filme de Duvivier. Já Pépé é um personagem de se apaixonar nos primeiros instantes: Jean Garbin tem essa graça trágica de ser alguém pelo qual a gente se afeiçoa imediatamente, e ele nos leva em sua jornada que acaba em tragédia — algo que ele faz aqui tão bem quanto no Trágico Amanhecer.

O Demônio da Argélia usa tanto esse personagem quanto esse cenário de forma magnífica, um uma tradução perfeita do outro, que se encontram no meio de uma verdadeira guerra — Pépé, que quer sair de seu esconderijo para abraçar o amor de sua vida; e a Casbá, que luta com a repressão do governo francês pela sua pluralidade cultural. O Demônio da Argélia monta esses dois conflitos até se confundirem e se tornarem um só, e é aí que a tragédia de Pépé se instaura: assim como a Casbá, ele vai terminar no mar.