Pride & Prejudice ★★★★

O que eu acho brilhante na obra de Jane Austen é como ela faz uma crítica das convenções sociais da Inglaterra do seu tempo através da estranheza e do humor de suas heroínas. Elizabeth em Orgulho & Preconceito não se conforma com as necessidades da mulher inglesa de ser bem casada para ser vista como bem sucedida. Elizabeth passa suas tardes aproveitando da literatura e apreciando escultura, e Austen nos aproxima da Bennet “não tão bela” porque ela estranha toda aquela fascinação da mãe pelos futuros maridos de suas filhas tanto quanto nós. Não é que Elizabeth não acredita no amor, ela só não acredita que ele é o fim de tudo, e ela articula essa diferença pra quem quiser ouvir (eu não duvido que ela seja uma antepassada das garotas Gilmore, porque tem muito de Elizabeth na Lorelai).

No livro, Austen navega por toda essa aventura interior da Elizabeth com franqueza e humor. O grande acerto de Joe Wright nessa adaptação do Orgulho & Preconceito é em capturar exatamente esses dois adjetivos e levá-los para a direção. Wright é excelente em encenação, e faz questão de exibir tudo aquilo que Elizabeth acha estranho e exagerado no jogo casamenteiro da sua mãe na tela. O Sr. Darcy é alto demais, e tudo o que ele foi educado a fazer — levantar, balançar a cabeça, se curvar — ele executa com uma dureza que seu corpo parece não permitir. As paradas e festas do povoado são tão divertidas quanto caóticas, e o filme não evita de comparar os soldados que desfilam pelo vilarejo com os porcos na casa dos Bennet. E a casa, que Wright apresenta em uma série de planos sequência magníficos, captura perfeitamente a dinâmica de uma família onde pessoas demais vivem sob o mesmo teto com visões diferentes de como deveriam viver, e mesmo assim dão um jeito.

É uma excelente adaptação. O filme de Joe Wright não é o mais fiel em questão temática ou narrativa, mas captura exatamente o que faz Orgulho & Preconceito (e a obra de Jane Austen de forma geral) sempre tão moderna e vívida. Essa estranheza de Elizabeth é, afinal, eterna, e Wright só precisa dar um empurrãozinho na execução para mostrá-la tão atual quanto ela foi no século 19. É um filme tão bom que dá vontade de ler o livro, e não pra saber o que se perdeu, mas porque as duas horas dinâmicas que Wright proporciona deixam com vontade de mais.

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