Watchmen ★½

Watchmen, o filme, captura muito bem a fúria que existe em Watchmen, o gibi. Ambos são histórias que vertem uma insatisfação e uma decepção de seus autores de uma maneira explícita.

Mas nos gibis, Watchmen é definitivo porque questiona essa fúria, e como ela gera esses justiceiros mascarados que beiram ao fascismo. Dividido em doze capítulos, o quadrinho usa o mistério de um assassinato e uma corrida contra o relógio apocalíptico para observar como esses eventos paralelos despertam, em cada um dos super-herois protagonistas, uma reação que reflete a forma que eles veem o mundo.

Cada um dos volumes avança a narrativa um pouco para frente enquanto atravessa tempo e espaço na memória de um personagem específico — e, assim, mostra como ele enxerga o mundo, e como a sua figura de justiceiro define o mundo que ele vê, e o mundo que ele queria. É uma obra gigante e difícil de mensurar, que vai desde o fã fascista do Rorschach até o pós-humanismo do Dr. Manhattan (que tá quase no Malick na percepção da vida como algo tão mínimo e milagroso) — passando pelo não fede nem cheira do “heroísmo é um mal necessário da humanidade“ do Coruja; o heroísmo como resposta do trauma da Espectral; e o heroísmo idealista do Ozymandias. Watchmen, o gibi, mostra desde cedo que um grupo como esse está fadado ao fracasso, e que o título do grupo de super-heróis é apenas uma jogada de marketing para um mundo que precisa acreditar em algo — mas que essa necessidade os faz acreditar em algo absolutamente perigoso, como o fascismo de “heróis” como o Batman e o Homem de Ferro.

Watchmen, o filme, não vê nada disso. Zack Snyder traduz para a tela toda a fúria e a pose que os quadrinhos de Alan Moore e Dave Gibbons usam como forma e como tema, mas Snyder nunca cria a substância. Nessa adaptação, que necessariamente encurta tramas e apaga blocos de pretexto que são absolutamente necessários mas impossíveis de serem estabelecidos em um filme de três horas, Watchmen nunca questiona o fascismo de Rorschach ou a omissão do Coruja. No Watchmen do cinema, em um mundo corrupto o herói é aquele que cria a justiça com as próprias mãos, doa a quem doer, e Rorschach é a figura definitiva de Snyder para isso; e Ozymandias, um genocida, nunca é questionado pelas suas ações mas sim pela sua feminidade.

O pior é que as dezenas de personagens que o filme tem pena demais de cortar e as tramas que ele não encurtou só expõem mais como a visão de Snyder para Watchmen é limitada ao impacto do soco, mas nunca no pensamento que levou àquela violência: a Espectral do filme existe apenas para excitar o Dr. Manhattan, até não ter nada mais dele a ser excitado porque ele não é mais um homem, e sim uma divindade.

Quando o filme começa e “The Times They Are A-changin'” do Dylan toca, exibindo os eventos que levam até o início do filme, parece que Snyder entende que Watchmen é uma obra que explora e questiona o ódio que existe dentro do americano — a prospecção de um futuro brilhante após a Segunda Guerra vai ruindo conforme a corrupção de um país exibe um ódio que foi fundamental para a fundação dos Estados Unidos, e que nunca foi reparado. Mas o filme não absorve essa lição, apenas o macete de casar visuais impactantes com uma trilha que já possui uma carga sentimental histórica. O tema de Koyaanisqatsi é usado para estabelecer o tom da tragédia de Jon Ostermann; “The Sound of Silence” acompanha um enterro meloso… Momentos na teoria impactantes que não possuem contexto nenhum, e assim ficam só como imagens bonitas com uma fúria que nunca é compreendida.