La Cérémonie ★★★★½

A amoralidade como instrumento para o caos onde o caos é o próprio objetivo e nunca é utilizado a serviço de algum tipo de declaração de rebeldia contra alguém ou alguma instituição. O golpe do mestre Chabrol aqui é construir os movimentos das personagens de Sandrine Bonnaire e Isabelle Huppert a partir desse jogo caótico vazio, onde desestabilizar é simplesmente tirar do lugar, sem mensagem, sem postura, pura anarquia. É por isso que a cena em que elas se olham dentro do carro logo no início do filme é tão definidora: o reconhecimento é imediato, almas gêmeas sem paixão, apenas iguais. Chabrol subverte a lógica dos porquês e faz com que as duas atrizes flutuem junto com os atos de suas personagens pelo simples prazer pelo movimento. Não há exatamente uma raiva da burguesia ou da família como instituição ou mesmo da formação cultural. Há um completo desinteresse por estes conceitos, um entender-se não como peça excluída,  mas à parte, alheia a tudo aquilo. O livro de Ruth Rendell, que também escreveu a obra que Almodóvar adaptou como “Carne Trêmula”, é o ponto de partida para Chabrol, num de seus exercícios de gêneros mais eficientes e complexos, emprestar a essas personagens uma liberdade plena, completa, que as faz triturar todas as coisas que encontram pela frente. Não porque sejam empecilhos, mas simplesmente porque elas estão lá.