Synonyms ★★★★★

Um homem pode escolher quem é, para onde vai, o lugar que ocupa no mundo. Verdadeiro ou falso? Um homem pode deixar para trás seus traumas, seus medos, sua história e começar do zero. Verdadeiro ou falso? Um estrangeiro pode se livrar do fardo de ser estrangeiro, se misturar, se integrar, desaparecer em sua nova terra. Verdadeiro ou falso?

“Synonymes” é um filme de fluxo, é cinema em movimento, é sobre tentar materializar o impalpável, o incômodo, o estado de espírito. O que Nadav Lapid faz neste filme é um espanto. Capturar a angústia do estrangeiro, do homem que busca, é um desafio porque não existem certezas quando tudo o que se quer é deixar pra trás e a chance de flagrar este momento de transição e se perder na tradução não é pequena. 

Lapid, que já havia provocado em “Policeman” e “A Professora do Jardim da Infância”, abordando questões e sentimentos complexos em ambos, dá um passo além e tenta dar corpo ao imaterial. Talvez porque o corpo neste filme é o universo de segurança, é a terra que se conhece, é o reino que se domina e é o que mantém o equilíbrio num espiral de instabilidades.

E o que seria dar corpo ao imaterial que não fosse fazer grande cinema? Na nossa tradição ocidental, somos tão ligados à palavra, tão reféns da narrativa, dependentes da historinha que quando se faz um filme onde esta palavra serve mais para demonstrar o desconforto do que para contar a tal da historinha, onde o roteiro tradicional é diluído e o recado do diretor está na maneira de mover sua câmera, nos cortes de sua montagem, enfim, nas escolhas de sua mise-en-scène, as respostas ficam menos óbvias do que se gostaria. Isso se a resposta não morre na pergunta.

O quão desesperado está um homem que renega sua identidade, cujo status quo é o de fugitivo da vida, que corre por sobrevivência e por sanidade? O quão profundo e denso consegue ser um cineasta para registrar seu tormento? Nadav Lapid, inspirado em suas próprias experiências e ansiedades, captura mais que o mal estar que nos deu tantos grandes filmes neste ano, ele atinge um nível de eloquência quase espiritual.

Discutimos o filme em: cinemanavaranda.com/2019/12/17/ep-210-entre-facas-e-segredos-sinonimos/

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