O Canto da Saudade

O Canto da Saudade ★★★★★

Mais um texto publicado no Videodrome como material de apoio para o curso online Constelações do Cinema Brasileiro (1898-1992).

"FIGURAS E GESTOS"
Décima quarta palestra

Senhores ouvintes, boa noite.

No livro de Stephen Watts, The Film Technics, há um artigo sobre A Música na Tela, que merece ser comentado e divulgado.

A música, que exerce grande influência na sensibilidade do público, sempre contribui para o sucesso dos filmes, quando naturalmente é feita de acordo com as passagens da história, seja drama ou comédia. Mesmo no tempo do silencioso, musicar um filme com perfeição era possível nos grandes centros, onde sempre existiram boas orquestras e o maestro assistia à película vários dias antes da exibição para o público. Tinha, portanto, tempo de sobra para escolher a música que melhor se adaptasse às cenas do filme. Nos pequenos centros, entretanto, esse trabalho era feito de maneira desordenada. Nesse tempo, o cineasta, sem poder controlar o andamento musical, não podia se utilizar da música para acentuar o caráter das cenas, dando ao filme maior intensidade.

Com o advento do cinema sonoro, tudo mudou. A mesma orquestra, no entanto, que acompanhava a projeção nos cinemas, continua a fazer parte integrante do filme. E o músico compositor tem o seu posto assegurado no estado-maior da produção. Herbert Stothart faz umas considerações interessantes sobre a música na tela. Stothart, grande compositor, antigo professor da Universidade de Illinois, colaborou com Franz Lehár e escreveu com Rudolf Friml a partitura da famosa opereta Rose Marie.

Quando o grande artista Lawrence Tibbett filmou The Rogue Song, Stothart dirigiu nessa ocasião, pela primeira vez, a música de um filme. Desde então vem fazendo adaptações para muitos outros: A Fuga de Mariette, David Copperfield, Romeu e Julieta, O Grande Motim, etc.

Diz Stothart:

"Na minha opinião, acho a música no cinema um meio de incrementar o gosto pela boa música e revelar vocações mais de músicos sérios que de compositores ligeiros. Pouca gente avalia a importância, o encanto, que não só a boa música mas mesmo a música clássica empresta ao filme. Em nossos dias, o público tem a possibilidade de ouvir e apreciar as obras dos maiores músicos, que acompanham os dramas cinematográficos para lhes dar maior valor. Sempre tive a convicção que, animando o drama com um acompanhamento musical, não só difundia diariamente a música clássica no público em geral, como ainda estimulava principalmente talentos novos, que mais tarde se podem tornar clássicos. Enquanto os compositores de canções encontram no estúdio um campo muito restrito, os autores sérios têm oportunidade para desenvolver sua inspiração moderna e seguir o caminho traçado por homens como Stravinsky, levando à tela os seus princípios impressionistas."

O Cinema Brasileiro, que está começando agora, pode tirar destas poucas palavras de Stothart grandes ensinamentos. Primeiramente, não devemos insistir em aplicar nos nossos filmes, como até agora, apenas a música ligeira, incidentalmente.

Dos filmes sonoros brasileiros até agora produzidos, apenas O Descobrimento do Brasil e Os Bandeirantes do INCE apresentaram uma partitura musical que vai sem interrupção pelo filme, de fora a fora, conservando sempre um valor sinfônico notável. O Descobrimento do Brasil deu motivo a que o nosso grande Villa-Lobos se inspirasse e compusesse três ou quatro suítes de extraordinária beleza.

Os Bandeirantes do INCE permitiu que o maestro Francisco Braga fizesse um verdadeiro pout-pourri das suas melhores composições. Apenas o Prelúdio era inédito. Aliás, não há nenhum mal em aplicar, nos nossos filmes, música incidental. Mesmo sob o ponto de vista técnico, facilita extraordinariamente. Inúmeros filmes americanos são até hoje recordados devido às pequenas melodias, encantadoras, neles contidas.

Em Intermezzo, por exemplo, a peça de violino de Provost, A Valsa da Despedida em Ponte de Waterloo e, ainda ultimamente, em Casablanca.

Mas, como eu ia dizendo, não há mal nenhum em aplicar a música incidental nos nossos filmes. Por que, porém, há de ser sempre música ligeira, canções, sambas? Nós podíamos, perfeitamente, divulgar também melodias desconhecidas do público brasileiro, de compositores nossos, notáveis, como José Maurício, o próprio Carlos Gomes, Henrique Oswald, Alberto Nepomunceno, para falar apenas em alguns que já morreram. E podemos ficar certos que há músicas desses homens absolutamente populares.

No filme Uma Noite na Ópera, ouvem-se árias de Verdi, de Puccini, de Rimsky-Korsakov, ao mesmo tempo que canções populares italianas.

Podemos deduzir também das palavras de Stothart que, embora seja aconselhável divulgarmos o mais possível a nossa boa música, não haverá mal nenhum em aplicarmos nos nossos filmes a música estrangeira, sempre que necessária.

Os próprios americanos, que possuem compositores como George Gershwin, Stephen Foster, Aaron Copland, volta e meia enchem as suas produções de músicas estrangeiras.

O filme Cântico dos Cânticos foi todo ele musicado com a Sinfonia Patética de Tchaikovsky. O tema do primeiro tempo servia para a cena amorosa, e se repetia sempre durante o filme, como um leitmotiv de Wagner ou das óperas de Puccini. No filme Rose Marie figuram Romeu e Julieta de Gounod e também a Tosca de Puccini. Em São Francisco, introduziram-se trechos de Fausto.

As encomendas de trabalhos musicais se renovam diariamente nos estúdios, para argumentos cada vez mais importantes, e por isto Herbert Stothart acha que o músico encarregado de compor sua obra de acordo com o cenário do filme é forçosamente obrigado a desenvolver o seu talento e assim espera e crê que o cinema revelará um novo Beethoven ou um novo Gounod.

Vivas ao Cinema! Muito obrigado.

- Humberto Mauro, "Figuras e Gestos", Palestras Radiofônicas para a Rádio PRA-2, 1943.

Christofer liked this review