Eros + Massacre ★★★★★

A beleza do caos

Há uma brutalidade e polidez com a qual Yoshishige Yoshida trata os corpos ao longo de sua carreira. Yoshida transgride as noções e potencialidades do corpo ao mesmo tempo em que o reafirma enquanto máxima da materialidade na qual as ações acontecem.
Se em Good-for-Nothing o diretor retrata o corpo enquanto consequência da inconsequência juvenil e mimada — arquétipo este, amplamente reproduzido durante a Nuberu Bagu — em seus trabalhos posteriores como Akitsu Springs e A Story Written with Water, Yoshida começa a construir sua própria noção de corpo, colocando-o em toda sua potencialidade como algo mítico, transgressor, filosófico e poético. O corpo feminino é um dos principais, se não o principal, alvo do diretor que surpreendentemente não o exibe sob os mesmos clichês do erotismo que perseguiu o corpo feminino na Pinku Eiga e foi explorado sob uma poesia misógina na Nuberu Bagu.
Através de seus próprios jogos de ilusão e desconstrução, Yoshida tece um novo olhar sob o corpo feminino, relevando filosofia e poesia sem os mesmos moralismos de antes. O ápice disso pode ser visto em Woman of the Lake, Heroic Purgatory e Eros + Massacre.

Um encontro primoroso e desconexo entre passado e presente é promovido em Eros + Massacre, com a história do anarquista Sakae Osugi e seu relacionamento com três mulheres, entre elas, a pensadora feminista Itto Noe. Em paralelo, dois estudantes buscam destrinchar a vida política, ideológica e erótica de Sakae Osugi. Assim como em A Story Written with Water, é estabelecido um jogo de enganação que desconstrói lentamente a linearidade e temporalidade, fazendo com que os estudantes encontrem e questionem seu próprio objeto de estudo.
Yoshida capta de forma única a cerne da Nuberu Bagu e de seus conflitos históricos que levaram a ressaca moral e ideológica presente nesse movimento. A desconfiança em relação a todo tipo de ideologia toma forma através desse encontro entre política e negação da política.

Os ideais anarquistas de Sakae Osugi trabalham diretamente com a destruição da instituição do amor, a monogamia. Essa conexão entre relacionamento e o erótico se unem às concepções de corpo de Yoshida, estabelecendo uma dialética desconstrutivista que questiona os resultados da relação entre o corpo, o erótico e a aniquilação total. É preciso buscar o significado de eros, a pulsão de vida, que em contextos freudianos se dá através do amor e de tudo que envolve o erótico. O antagônico de eros é tânatos, a pulsão de morte e obliteração.
Yoshida coloca em voga esses dois elementos e mostra que tânatos não é a antítese de eros, mas sim, sua síntese. A aniquilação é o único resultado possível no curso da história, é a única ideologia inabalável. A destruição é a única vertente política. E com o cinema não seria diferente.