Neon Bull

Neon Bull ★★★★

É bem marcante essa dinâmica de investigação que opera entre o desejo e a materialidade que move o homem contemporâneo nesta segunda fase da filmografia de Gabriel Mascaro.

Porque se na primeira década dos anos 2000 sua lente se voltava para a experiência junto dos possíveis que a narrativa do documental podia dar a ver, na segunda década desse novo milênio, seu interesse parece residir no destrinchamento do limites e fronteiras ente o afeto e a corporeidade dos múltiplos daquelas figuras representadas nos filmes.

A diferença é a ficção que é posta numa linha cada vez mais fronteiriça traçada pelo documentário. De Avenida Brasília Formosa (2010) a Divino Amor (2019), esse pode ser considerado um interessantíssimo paradigma calculado e colocado em cheque a cada novo projeto pontuado por Mascaro nesse intervalo de tempo.

Aqui, chegamos na metade dessa estrada. E o universo desse Nordeste árido, hostil mas ainda bucólico, são a base para o desenvolvimento de uma narrativa que quer tão somente observar essas personagens naquilo o que seria, não um habitar natural (sentimos a potência de uma vontade imensa dessas figuras em simplesmente "não estar ali"), mas talvez um estado perene onde a vontade de ser algo mais, algo outro, existe, mas não necessariamente passa a ser um fim em si.

E essa talvez seja a grande chave que aponta, não somente esse filme, como também todos os demais realizados por Gabriel nessa última década. Reside em cada um desses arquétipos, um afã de tornar-se outra coisa que não aquilo o que são. Mas não é pela alteridade em si. Tem algo mais.

Há sempre um vestígio de qualquer tensão. Não necessariamente destrutiva ou para fundamentar algum sentido de conflito/confronto entre partes. A luta ou o desafio a ser transposto parece não partir de um indivíduo, vilão ou antagonista.

No microuniverso em que esses tipos estão, é uma espécie de regime de deslocamento que parece incidir sobre esses sujeitos. Eles não são heróis, nem antagonistas de qualquer alguém ou situação. Eles apenas são nas suas individualidades e aspirações, aptidões.

Ou seja, vai ver por isso tenhamos Iremar (Juliano Cazarré), como peão que também é um talentoso aspirante a estilista; Galega (Maeve Jinkins) como uma mãe que trabalha como caminhoneira; uma garotinha, Caca (Aline Santana), que vive entre bois mas que ama mesmo são os cavalos; além de uma gestante que trabalha durante o dia como revendedora de perfumes e a noite como vigilante noturno numa fábrica de tecidos de roupa.

Todos assumem papéis na estória que não ressoam ou reforçam uma representação de esteriotipia. Pelo contrário, fica bem evidente essa proposta de contrarregulacao dos arquétipos em cena. Nem um deles atua numa zona de lugar comum na sociedade contemporânea brasileira.

Mas nem por isso, por outro lado, Mascaro os assim desenha para reforçar, em nós, um conceito frágil sobre a idealização do que seria esse homem/ indivíduo moderno e desconstruído. Porque apesar desses valores estarem em primeiro plano quase sempre, as zonas cinzas que os recobrem em maior ou menor medida, aparecem em primeiríssimo plano.

Vai ver eles sequer sejam heróis. Vai ver, seja esse espírito redutível que os faça, em último caso, humanos.