Phoenix

Phoenix

Por que? Essa é uma sensação que me percorreu pelo filme. A trama aparentava que poderia ser resolvida de forma tão simples. Ela poderia dizer quem era, mas não diz. Por que? Perceber esse “por que?” durante a experiência do filme é o que o faz forte. Não era tão fácil como parecia, nada era fácil ali, as emoções contidas são muito intensas.

Existe uma história antes da história. O romance, a guerra, os campos de concentração, uma suposta traição. E o diretor Christian Petzold consegue evocar tudo isso sem necessariamente ir ao passado, mas através de elementos do presente, sejam fotos, lugares, gestos, olhares, para trazer todo esse passado, hora um romance arrebatador hora o horror da guerra. O filme evoca a importância de seus espaços, uma praça que os antigos amantes costumavam ir, que nós nunca vimos antes, mesmo assim o diretor consegue trazer tudo o que aquele lugar significa para eles.

É nesse sentido que vejo o filme como uma encenação de um romance. A própria condição da personagem Nelly (Nina Ross), que precisa fingir que é ela mesma, traz esse sentimento, mas não apenas isso. Os lugares trazem essa forte sensação de palco, a escuridão da noite extremamente negra que deixa a vista perfeitamente apenas os escombros, por exemplo. Cada lugar vai se tornando uma palco onde eles reencenam o seu amor. O próprio final do filme é dito e ensaiado como vai ser.

Essa apreensão desse final já anunciado percorre o filme e começa a substituir a sensação do “por que?” que coloquei no início. Pois, começamos entender a personagem e os seus motivos de não contar. Ela mesma entra nessa ideia de encenação do romance, pois inclusive a pessoa que ela foi talvez “morreu” nos campos de concentração, às vezes se refere a si mesma na terceira pessoa. Do está morta e voltar a ser ela mesmo é passado visualmente pelo Petzold. Do começo da personagem sem rosto, depois o rosto que não é mais seu, então a transformação, as roupas, a maquiagem, o cabelo, e por fim, de modo devastador, a canção no final.

Falemos do final. Tudo o que o filme vai lentamente construindo está nesse desfecho. O tão longo e esperado “reencontro” do casal, a encenação deste na verdade. E adicionado a isto, qual será a decisão de Nelly quanto ao romance, a questão da história por trás da história, ela está em posse das informações do que ocorreu antes, possui a certeza da traição. Tudo será resolvido de uma vez numa poderosa cena musical, cinema em estado puro, som e imagem em perfeita harmonia. Nada precisa ser dito ou explicado, está tudo lá, na maneira como ela canta, na tatuagem, no olhar de Johnny. Nelly renasce das cinzas.