Trouble Every Day

Trouble Every Day ★★★★★

A primeira coisa que vemos no filme é um casal se beijando e trocando carícias. E é isso. Não há complicações, aqueles personagens nem estarão no resto do filme. O objetivo é puramente sensorial. Um momento de amor na tela, provavelmente o sexo posteriormente, mas o filme não mostra. Creio que justamente é isso que o filme da Claire Denis irá trabalhar. Essas sensações, a sedução, essa excitação do sexo, todavia, no resto do filme, esse ato terá consequências mortais.

Desejo e Obsessão é um filme muito misterioso, nada é muito concreto, e Denis quer nos deslocalizar em tudo. Mas a sensação de que se trata de vampiros em mim é muito forte. Apenas uma sensação mesmo, certezas nesse filme são difíceis, e é justamente um dos pontos de encanto da obra. É um filme que ao mesmo tempo é misterioso, tem poucos diálogos, foca mais nas estações, mas evoca muita coisa, evoca uma mitologia, um passado dos personagens, uma ligação entre eles. É uma obra riquíssima, sem precisar ficar se explicando para parecer inteligente.

Voltando aos vampiros. A bela e sedutora Coré (Béatrice Dalle) e o estranho Dr.Shane Brown (Vincent Gallo) são os vampiros, ou as criaturas próximas a isso. Cada um está numa relação cuja dinâmica com o parceiro revela traços de sua natureza e da mitologia do filme. Mas uma coisa é certa, o sexo ativa a condição animalesca deles. Shane controla os seus anseios sexuais para não machucar a sua esposa, logo no começo duas cenas mostram bem isso. No avião quando ele vai se trancar no banheiro e imagens sanguinolentas surgem na sua mente, e quando a sua esposa está nua na banheira e Shane aparece de repente olhando para ela de maneira animalesca. Existe uma fera dentro dele que está tentando controlar, a besta interna, e o filme consegue criar isso muito bem através de suas construções bem visuais.

A cena da banheira merece destaque inclusive, pois traz várias das ideias do filme. Temos esse contato direto com o corpo, e com isso as sensações que aquele corpo provoca. Ela está nua na banheira e a câmera desliza por seu corpo dos pés à cabeça, neste estado de pureza através da água. O desejo que pulsa na tela e no olhar do personagem do Vincent Gallo, e a impossibilidade de o consumir. O banheiro, esse lugar privado, vai servir durante o filme como um escape desses desejos que não podem ser consumados. Seja a masturbação do personagem do Gallo, a esposa que entra em contato com esse gozo depois, e a emblemática cena final onde a gota de sangue escorre pela cortina.

Outros corpos no filme estão encharcados de sangue, mutilados, e até queimados. Coré coberta de sangue de sua vítima, suja as paredes, desce as escadas como um animal, enquanto Shane a observa na escuridão. Ele sabe muito bem que pode atingir aquele estado, colocando em risco a esposa. Denis expressa muito bem o estado animalesco dessas criaturas e o resultado dos encontros com outros seres humanos. É uma articulação bem explícita da diretora francesa em diversas situações. Coré brincando com a pele de sua vítima… o filme suja suas mãos, não está interessado em uma violência higiênica e nem no pudor dos corpos.

Mas finalmente a besta interna de Shane tem que sair. O filme irá dedicar o seu segmento final ao personagem indo à caça. A diretora brinca com público trazendo um cachorrinho inocente para o filme, depois de termos testemunhado tanta violência. A personagem da camareira irá trazer o desejo de Shane à tona. Desde o início o filme joga com a sensualidade dela e com o desejo que o seu corpo provoca. É justamente o seu cheiro deixado na cama que vai atrair finalmente Shane, não qualquer cheiro, provavelmente o cheiro de suas partes íntimas, e ele como um animal irá a caçar. A sedução característica do vampiro entra em ação na cena, mas não demora muito para a violência explícita tomar conta, onde a consumação do sexo se dá literalmente comendo o outro...