Cry Macho

Cry Macho ★★★★

Definhamento da virilidade.

Clint Eastwood, em sua iluminada velhice, faz um filme que compreende a irrelevância da virilidade para o homem de 90 anos.

Na narrativa, os jovens estão iludidos com brigas de galo, esse animal que, como um pistoleiro de western, é garanhão, territorialista e agressivo. Enquanto isso, o velho protagonista nega sexo, evita conflitos e busca estradas pacíficas. Significa dizer que Clint, nessa maturidade da vivência, corajosamente expõe que seu passado viril no cinema pouco faz sentido para quem agora carece de testosterona.

Se o filme parece lento e sem ação, é porque a mise-en-scène, a ideia de encenação, está justamente em elaborar esse desinteresse pelo vigor físico. A briga de aves é apartada pela polícia, o lacaio da chefona fica sempre para trás, a surra dos mexicanos é filmada com indiferença, o xerife “machão” é apenas uma piada e o galo é que resolve o conflito armado, como uma paródia das irreais situações dos westerns clássicos.

Ou seja, o filme desenvolve uma resposta estética que rejeita a exagerada virilidade do passado de seu próprio ator-diretor, o que revela um artista em profunda meditação sobre seu legado, assim como um homem disposto a reavaliar sua real condição no fim de uma vida lendária.

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Que o cinema tem, mais do que nunca, reavaliado as posições da mulher na sociedade e, portanto, “o que é ser mulher?”, não é novidade. Porém, nesse ínterim, pergunto: o que é ser homem?

Se ser homem é, por assim dizer, algo mais complexo do que uma questão biológica, anatômica — do que ter no corpo a bimba da masculinidade — ser homem é, pois, portar um conjunto de atributos e comportamentos, inclusive morais, os quais são socialmente validados, geracionalmente transmitidos e constantemente reavaliados.

Ora, quando os frankfurtianos perceberam que instituições como a família, a religião e a escola perderam parte de sua função catequizadora para os meios de comunicação de massa, o cinema já era formador de caráter e doutrinador de costumes, de modo que, “ser homem”, a partir de então, era também ser aquilo que os homens são no cinema.

Daí as gerações de pais e filhos influenciados pelos varões, “modelos de homem”, que a tela grande agigantou: John Wayne, Marlon Brando, Paul Newman, Sylvester Stallone e tantos outros dentre os quais Clint Eastwood perseverou como o maioral. Tal ícone supremo, ecoado no imaginário varonil como o som da gaita no filme de Leone, ou tão absoluto quanto o tiro de um Magnum em ‘Dirty Harry’, cravou na consciência masculina a bala da virilidade: o homem deve estar disposto a exercer a violência.

Mas o fenomenal na carreira de Clint (chamo-o assim porque me sinto íntimo) é que ele próprio, como diretor-ator, passou a reavaliar sua iconografia de macho-alfa conservador. De 'Os Imperdoáveis' até aqui, Clint aparece sempre meditando sobre sua posição no mundo (como se relacionar com a violência, com as mulheres, com outras etnias e quais valores transmitir aos jovens). E tudo isso é importante porque 'Cry Macho' é outra etapa dessa longa meditação.

Clint, aos 91 anos, com a testosterona rala e o corpo minguado, não vê mais valor naquela definição de masculinidade: "essa coisa de macho é superestimada". E dessa ideia surge toda a encenação do filme, a qual rejeita a virilidade na forma e na concepção das cenas — para expor a atual posição de um homem-ícone-cineasta, honesto como poucos.