Monster Hunter

Monster Hunter ★★★½

Este filme imparável arremessa o espectador num universo que rejeita os artifícios sistematizados de trama e o desenvolvimento esquemático de personagens. Há um borrão de jornada do herói, alguns rascunhos de personalidade e meia dúzia de post-its de diálogos, ou seja, tudo que sai da boca dos atores é irrelevante. Por isso, ‘Monster Hunter’ pode soar desafiador para quem enxerga o cinema como uma "arte de contar histórias”. É que o filme negligencia a "história” para oferecer no lugar disso uma experiência audiovisual.

Perceba que o trabalho dá outro sentido aos conceitos mais básicos de uma “história”: o início, o meio e o fim. Aqui, o início já parece o meio, e o fim, na verdade, é o começo da próxima história. Significa dizer que a própria estrutura narrativa revela aquilo que o filme pretende valorizar: o meio, ou, em outros termos, o presente. A experiência audiovisual de ‘Monster Hunter’ então exclui as firulas adjacentes que os filmes passaram a achar que são parte obrigatória do cinema (a história, os plots, os diálogos, a política, a semiologia, a psicologia, etc), e assim se concentra num cinema muito mais puro, baseado nos efeitos imediatos da imagem.

Não é imediatamente óbvio, mas a linguagem cinematográfica fundamenta-se numa característica primária da imagem em movimento: a capacidade de capturar o tempo, a duração, e de transmitir o acontecimento, magicamente, agora. Isso é, apesar de quando foi filmado e de quando a narrativa se passa, tudo que se experimenta no cinema se experimenta no presente. E essa característica nutrirá especialmente o cinema de Paul W. S. Anderson.

Nos seus filmes, somos ambientados no único espaço que importa: nem o anterior, nem o próximo, mas o que a personagem está. E o "desenvolvimento" decorre de como a personagem relaciona-se com esse ambiente e supera os seus osbstáculos. É uma maneira estimulante de relacionar uma pura propriedade do cinema com uma questão elementar dos videogames. Se as duas mídias brutas pudessem ser lapidadas num só diamante, brilho não reluziria distante deste filme.