Peeping Tom

Peeping Tom ★★★★½

Filmar a morte. Senão esse um hábito entre os psicopatas, é com certeza um costume descarado dos cineastas. Criminosos. Com uma câmera, ousam, como diria Bazin, a embalsamar o tempo, condenando os acontecimentos a horripilância de sua duração, e surrupiando a credibilidade automática da imagem para construir um discurso.

É que a câmera, com sua capacidade de capturar objetivamente o que está diante dela, arranca da realidade um fragmento, e faz dele o elemento de um interesse — subtraindo o cineasta a sua própria corrupção.

Os corruptos, são vários, ao longo da história do cinema, não é surpresa, extorquiram a realidade e colocaram-na a serviço dos mais medíocres dos interesses. E assim essa arte, tantas vezes subjugada à indústria e a propaganda, fabricou imagens automáticas para ganhar dinheiro e alienar o público. E a violência, frequentemente recurso barato que provém os interesses, fora gatilho facilitador de impactos, apelando aos instintos primitivos do espectador.

Não se pode, é claro, culpar o público, porém sabemos que o maior dos voyeuristas não é o assassino que espia a vítima, e sim o espectador de cinema que espia o assassino que espia a vítima. Aproveitando-se dessa natureza cúmplice do público, o cinema sempre quis, então, não apenas filmar a morte, mas filmar o assassinato — embora poucos cineastas tenham dedicado real esforço ao seguinte: como capturar o momento de quem vai ser morto? 'Peeping Tom' é um dos maiores exercícios formais que tentam responder a essa questão.

O protagonista, em busca da expressão de morte perfeita, aproxima sua câmera, o máximo que pode, do medo da vítima, como quem quisesse "capturar um instinto", não apelar a ele. E com seu tripé, aplica um golpe baixo na realidade, fabricando uma imagem que, ao contrário do que faz seu pai, não está a serviço da psiquiatria — o psiquiatra aqui é um idiota que não entende que na cabeça do cineasta "há sempre uma ideia". Essa ideia, costumeiramente, aparece submissa aos interesses medíocres, mas, em 'Peeping Tom', ela serve ao próprio cinema — o protagonista só queria fazer um filme.