Don't Look Up

Don't Look Up ★½

Não Olhe Para a Tela

Isto não é real!

Mesmo tendo um filme como Vice (2018) na filmografia, Don’t Look Up (2021) parece ser a verdadeira “grande aposta” de Adam McKay (ba dum tis). Aqui ele tem um elenco de peso e está livre para contar sua narrativa sobre o fim do mundo a partir do ponto de vista dos dois cientistas que o descobriram. Apostando na satira à comunicação de massa e na "crítica social foda" da crise ambiental, McKay trás toda uma denúncia presunçosa (que vimos no sarcasmo de Vice) e um humanismo demagogico (de The Big Short) para um filme extremamente pueril.

Eu como um entusiasta das sacadinhas deveria me dar bem com os filmes de alguém como McKay, mas não. É um realizador cheio de trocaralhos do cadilho que não vai muito além disso - apesar de se esforçar para dizer que sim. A maioria das suas obras se sustentam apenas por esse escape, por meio da piada e do humor denunciativo, coisa que na sua mão se faz um estilo ligeiramente arrogante, principalmente por se abdicar de uma abordagem mais sincera e dramaticamente valiosa dos temas.

O problema não é escolher essa estrutura e feitio, não é só a crítica por meio da satira, mas a própria forma como McKay usa todo um aparato gigantesco para afirmar suas demasiada esperteza em relação às engrenagens do sistema e seu funcionamento terrível. Não é de hoje que a gente sabe os problemas do capitalismo, da indústria, da política ou da comunicação de massa - não foi ontem que o mundo ficou maluco.

Eu pouco arriscaria chamar Don’t Look Up de sátira, ou paródia, é um filme que possui seus exageros pontuais, mas que existe mais como um maniqueísmo superficial do que como um jogo de situações absurdas. É fútil. Se você não está vivendo em uma caverna provavelmente já trombou com algum conspiracionista, se é que você não é um. E em ambos os casos, independente de como você vê o mundo - seja por que está indignado com sua mãe antivax, ou por que não aguenta mais a mentira da NASA sobre a forma da Terra - ele está uma bagunça. É graças ao nosso planeta estar ligeiramente mais conturbado que o roteiro de Don't Look Up que o exercício de reflexão do diretor é tão pouco propositivo, nem um pouco profundo, pouco arranha a superfície do tema.

Pode ser porque eu vivo no Brasil, mas o negacionismo, a mídia abutre e o presidente babaca não são uma paródia. É cômico, sem dúvidas que sim, trágico na mesma medida, mas não me parece nem de perto um exagero. Pode ser que nós aqui no sul das américas estejamos um pouco mais avançados na merda, mas eu prefiro acreditar que McKay está um pouco atrasado na reflexão.

Minha vó cogitar tomar remédio de cavalo me assusta mais do que um cometa; meu presidente aparelhar órgãos estatais para se perpetuar no poder me assusta mais do que a arrogância da personagem da Meryl Streep; “filantropos” brincando com a economia mundial me assustam mais do que alguém querendo lucrar com um milagre espacial. Assim como a Presidente dos EUA esquece do resto do mundo no longa, McKay esquece que o surto vai muito além do povo ianque e que, mesmo dentro da Casa Branca, os escândalos são muito maiores que os seus pseudo absurdos.

Esse texto não deveria se tornar uma descrição de quais são minhas preocupações com o futuro do meu país ou da geopolítica, mas Don’t Look Up me provoca a isso quando se baseia em uma sátira e se concretiza por uma forma que tem mais a ver com a imagem documental do que com uma piada - é um filme que fica entre a gozação sobre esse show business bizarro que é a comunicação massiva contemporânea e a pose de ser cinema e estar discursando sobre a verdade.

A fotografia de Linus Sandgren é a máxima dessa “documentarização” da ficção. A objetiva invade os cenários, na mão, se perdendo dos personagens e observando as coisas no entorno, imitando os reflexos de um cinegrafista amador que captura imagens tomadas pelo ruído do digital (aquele grão que costuma vir junto da baixa iluminação). É um tipo de textura e estilo que remete ao imediatismo de um cinema direto, que remete a um registro pouco metódico, se tornando um simulacro de documentário.

A obra tenta, o tempo todo, fugir da imagem mais plástica, ela quer afirmar seus cenários artificiais como espaço reais por meio de uma muleta formal, como se a câmera inquieta e o foco inconstante fossem certificados de um fato. Parece que McKay queria negar os 75 milhões de dólares que fundamentaram sua piada, já que ela precisava de uma impressão mais crua do que o seu orçamento oferecia.

Ao mesmo tempo que o filme traz vídeos da internet, da televisão e de bancos de imagens como se quisesse alcançar o vídeo-ensaio através da montagem mais livre, também mergulha no espaço como um sci-fi de super orçamento ao mostrar os planetas e o cometa brincando com clichês de gênero. É isso que torna Don’t Look Up tão irritante, são 143 minutos de uma abordagem inconstante.

Eu não poderia jamais negar que realmente tem cara de documentário, o filme consegue imprimir com avidez seu estilo mais “realista”, contudo, isso conflita com o argumento, vai contra a banalidade de um amontoado de caricaturas. No fundo sua paródia é como uma boa mentira mal contada: cheia de fragilidades a ponto de ser impossível aproveitar os absurdos já que conteúdo e forma não estão alinhados. Mesmo o personagem do Leonardo DiCaprio, com todo o esforço do ator e sendo a figura com maior nuance dramático, não consegue deixar de ser um sujeito picaresco. E é essa dimensão burlesca do texto base que não vai bem com o estilo do discurso.

Partindo de um argumento jocoso, McKay tenta construir um grande elóquio complexo sobre a sociedade atual. Acaba sendo prolixo e, infelizmente, chocho. Soa como um adolescente querendo mudar o mundo sem saber o que isso realmente significa - é como se alguém escrevesse poesia com rimas ricas sem ter realmente o que dizer.