The Brown Bunny ★★★★★

Apesar de lidar com um real muito bruto (paisagens que nunca aceitam o signo da tristeza, ecoando apenas o vazio próprio e a indiferença ao indivíduo), o filme não lida com a realidade, mas sim com o ponto de vista do personagem que nem consegue digerir o presente que passa pelo vidro de seu carro. Como bem intitulou a Valeska Silva: “Isto não é a realidade!”. Gallo filma mais o grão que a paisagem.

O filme abraça “o ponto de vista de um homem só” até na própria realização. Apesar da equipe por trás da câmera (reduzida ao necessário do necessário; leia-se: uma equipe para suprir o que Gallo não conseguiria fazer apenas com as duas mãos) The Brown Bunny parece um “selfie-film”, um filme de um homem que viaja com sua câmera, posiciona-a e performa diante dela concentrando no próprio corpo a força dramática que encara a paisagem neutra. 

Nesta revisão, me lembrei muito de Stephen Dwoskin; o voyeur melancólico que se filmava e construía a força dramática (ele sim, sem equipe) apenas com o que era possível às duas mãos. Assim como Gallo, tinha como arsenal necessário: o dispositivo e o próprio corpo. O mínimo do mínimo. Todo outro corpo que aparecesse diante da câmera era convidado: imagem capturada sensivelmente pelo, já fundidos, dispositivo e o próprio corpo.

Dwoskin, por acaso, também fez seu The Brown Bunny em 2003. A retrospectiva fálica pelos sinais de vídeo do presente que se recusam a esquecer os grãos do passado capturados por ele: Lost Dreams.

O comentário que fiz sobre o filme de Dwoskin também vale para o de Gallo: “O sonho perdido nunca é de quem foi filmado, sempre é de quem filmou.” Está aí o grande paradoxo das obras em que os autores se filmam. Encontram no objetivo a antítese nostálgica que reduz o próprio ponto de vista ao que ele é. Ambos os diretores nunca alcançam o passado pois, diante da câmera, o próprio ponto de vista e o presente são indissociáveis apesar da constante colisão. Fazer do próprio corpo a evidência só reafirma o subjetivo do olhar que sempre registra. Mesmo que eles surjam como imagem, o único retorno possível é a nostalgia. 

Pelo retrovisor, Bud Clay gostaria de ver Daisy, mas só encontra a própria câmera.

Gabriel liked these reviews