Lady in the Water ★★★★

A criação de histórias e o ato de narrar em A Dama na Água soam tão mitológicos e ancestrais como na abertura de A Bruma Assassina, do Carpenter. A diferença é que a mitologia do Carpenter armava um combate histórico-social raivoso e frontal, partindo de uma força milenar para destruir outra (a igreja católica). No filme do Shyamalan, as corrupções do mundo social em geral são muito difusas e sugeridas, estão além das portas do condomínio, são mais ideias do que presenças na diegese que acessamos. Isso funciona muito bem porque os objetivos são mais nostálgicos e apesar do ideal de mudança política funcionar como uma engrenagem narrativa, acaba sendo um instrumento para a magia da construção de histórias, sejam elas escritas, filmadas ou narradas: o contato com o outro e com o mundo (que ele acredita ter se perdido). Não é por menos que em 2008 tenha feito Fim dos Tempos, logo após finalizar A Dama na Água, afinal são filmes que discutem a mesma coisa por dispositivos diferentes, um pela fábula e o outro pela catástrofe (muito embora Fim dos Tempos leve esse sentimento de perda às últimas consequências e escalas).

O interessante de A Dama na Água é que o tempo todo se discute a urgência da uma mudança futura, mas ela só pode acontecer pela mobilização no presente e é ali que a verdadeira transformação surge, começando com o mais simples dos gestos: um homem desesperançado, entristecido e recluso que se abre para o mundo. A história e a fábula só se constroem quando se conhece os personagens, o mundo que eles vivem, seus gostos e desgostos, seus passados, suas aptidões, qualidades e defeitos. Não fosse a crença na mitologia, talvez todos aqueles moradores permanecessem alheios um ao outro, cada um no seu micro cosmos. Em outras palavras, preparar a narrativa é explorar o mundo a sua volta. A mitologia milenar das histórias unifica as pessoas, constrói identificações comuns e no filme de Shyamalan os efeitos dessa crença são pragmáticos, palpáveis (o que deve muito ao confinamento do espaço, reservado a um condomínio). Apesar de ser um tanto expositivo e de cair no velho clichê cansado do crítico de cinema amargurado sabe-tudo, é um filme muito bonito e uma escolha que especialmente me encanta é que, enquanto os seres malignos são criaturas fantásticas, a dama na água é só uma mulher, por todas as aparências uma pessoa comum, afinal qualquer um é capaz de inspirar a mudança: ela parte de nós.