Da 5 Bloods ★★★★½

Destacamento Blood é em primeira instância sobre negritude. Sobre a relação dos EUA com seus próprios pretos, usando as guerras como força motriz. Desde a abertura que remonta boa parte da história racista e armamentista do país, fica muito claro que o objetivo de Spike Lee é lançar um novo olhar sobre a Guerra do Vietnã a partir desse grupo de pretos que foram colocados na linha de frente sem receber recompensa. E, pra garantir que isso fique bem claro mesmo, ele faz questão de explicar num diálogo didático como o cinema nunca mostrou a guerra que eles viveram.

Mas ele não quer ficar preso a um único momento histórico, então entrecorta o filme com diversas imagens reais, discursos e homenagens que contextualizam justamente essa relação que a América tem com os negros. Esse é ponto de partida para que Spike Lee alcance aquele que, na minha opinião, é o tema central de Destacamento Blood: a memória.

Observe como ele interrompe a mise en scene sem dó quando quer apresentar fotos ou vídeos de alguém que morreu por causa da guerra. Por causa do seu país. Lee não quer só homenagear aquelas pessoas (incluindo vários desconhecidos do público internacional). Ele quer garantir que o espectador se lembre do que aconteceu. Que o rosto daquelas pessoas fiquem gravados na nossa memória.

Mas, novamente, ele não para por aí.

Note, por exemplo, como as fotos e os vídeos (memória física) tem importância dentro da narrativa. Cenas reais ajudam a contar a história com o máximo de realismo possíveis, enquanto as fictícias se tornam gatilhos para o cérebro. As fotos de Norman estão carregadas de informações que teletransportam seus companheiros (e automaticamente a audiência) para o passado. Assim como todas as imagens feitas por Eddie durante a nova viagem se transformam, nos últimos minutos, em guias para um novo conjunto de lembranças e sentimentos

Lembranças e sentimentos que Lee faz questão de ressaltar de maneira ainda mais impactante a cada vez que um abraço toma conta da tela. Não é a toa que ele escolhe repetir esses momentos sob novos ângulos, relembram imediatamente a força daquele ato. Ele sabe que todos os seus abraços são guiados por sentimentos e lembranças (sejam elas boas ou ruins), começando justamente pelo reencontro dos quatro protagonistas.

Esse é o primeiro momento que nos avisa, mesmo sem falar, que Destacamento Blood é sobre memória. Afinal de contas, foi ela que levou todos eles até ali. A memória é, querendo ou não, o catalisador de toda a narrativa, visto que são as lembranças em torno de Norman que fazem os cinco regressarem ao Vietnã. A questão é que, como sempre, Spike Lee não para por aí.

Diversos momentos do filmes mostram como as memórias daqueles anos na selva vietnamita transformou os protagonistas (para o bem e para o mal). São essas lembranças que reforçam o vínculo incondicional entre eles. Mas são essas mesmas lembranças que atormentaram suas vidas até ali, influenciando na construção e na destruição de todos os aspectos de suas vidas.

Lembranças que dialogam com reparações histórias enquanto conduzem cada decisão tomada pelos personagens. Lembranças que amarram a trama com a contextualização histórica da abertura ao mesmo tempo em que direcionam o público para outra temática muito importante do longa: as consequências da guerra.

Um combo que inclui efeitos na política americana, os traumas dos soldados e até mesmo a maneira como os vietnamitas encaram o retorno daquelas pessoas.

Eu não sei se gosto de todas as escolhas narrativas feitas por Lee quando o longa entra de vez nesse tema (principalmente no terceiro ato), mas definivamente fui impactado pela maneira como ele trabalha os detalhes desse tema, incluindo a atenção dada pro ponto de vista dos vietnamitas e o uso dos atores idosos nos flashbacks.

Seria fácil esquecer deles dentro de uma trama cujo foco está na maneira como os pretos foram oprimidos pelas guerras dos brancos, mas Lee foge do relato unilateral de Paul quando oferece pinceladas que mostram como o Vietnã também foi oprimido. Uma guerra tem vários lados e todos eles possuem vítimas que não devem ser ignoradas em prol de outros. Tudo depende de quem está contando a história, apesar de todos concordarem que a guerra é uma merda.

Uma merda tão grande que aquele grupo de veteranos nunca saiu dali de verdade. Suas versões mais velhas são o retrato puro e fiel do que eles viveram no Vietnã. A guerra mexeu com eles de uma forma tão dura que eles não conseguiram mudar. Talvez consigam fingir bem, mas curar as feridas jamais.

E aí, entrando nesse âmbito, adoro a construção do Paul e, principalmente, da atuação magistral de de Delroy Lindo. Todas as camadas do personagem refletem, de maneira particular, aspectos importantes dos traumas deixados pela guerra. A paranóia, a raiva, a solidão, a culpa e todos os outros sentimentos que o fazem votar no Trump, fugir dos sentimentos pelo filho e agir como um ditador ganancioso.

Acho que o final cai em um ponto mais genérico quando foca na disputa pelo ouro (subtrama mesmos impactante do longa), mas os monólogos de Paul acionam a memória do público e lembram que Destacamento Blood é sobre coisas muito mais importantes e impactantes. Aquela é só uma amarração necessária e cheia de ação para um filme denso e igualmente necessário.