The Son of Joseph

The Son of Joseph ★★★½

Quando vemos, no belo O Mundo Vivente (2003), personagens se referindo ao cachorro do protagonista como um leão, nada podemos fazer senão aceitar a condição proposta. Decerto causa algum estranhamento no espectador, que incapaz de modificar algo na diegese, de mãos atadas perante tal situação, acaba por aos poucos sucumbir ao poder da palavra, esta a lógica que rege a obra de Eugène Green. A palavra é poderosa a ponto de poder transformar não física, mas metafisicamente, o ser. O cachorro é leão, ponto.

Seu novo filme, O Filho de Joseph, pode parecer aos não iniciados em sua obra (e abro parênteses para dizer que não sou especialista, sequer tendo assistido toda sua filmografia) ou mesmo ao público médio apenas uma comédia que se desdobra por soluções fáceis e situações convenientes. Mas justamente esses caminhos duvidosos do roteiro são os grandes protagonistas aqui, pois se baseiam em sua maioria no poder conferido à palavra, a divindade do universo de Green. É a palavra, mesmo uma mentira, que possibilita a entrada do protagonista em um evento privado, por exemplo; é a palavra que, em maior ou menor grau, define o destino de cada um.

É justamente esse patamar sacro da palavra o responsável pela artificialidade, teatralidade e mesmo neutralidade - por mais contraditória que a união desses termos pareça - das atuações nos filmes de Green (e pela própria forma de filmar do cineasta). A palavra é importante a ponto de exigir uma condição específica de seu emissor, de forma a reproduzí-la da forma mais pura possível, potencializando o que representa. E quando digo que a palavra é divina, é algo literal. Quando Deus ordena que Abraão sacrifique seu filho, o que há a fazer senão aceitar? O que deve ser questionado nunca é a divindade da palavra em si, mas sim a de seu emissor, afinal.

Assistido no Festival do Rio 2016.

Pedro liked this review