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Alma Corsária e a poesia escrito a quatro mãos

Carlos Reichenbach nos mostra através do prólogo que toda a história contada retrata a amizade e devaneios de sua infância. Uma autobiografia onde liberdade e misantropia curiosamente se casam.
Assim como quase todos os filmes realizados pelo Carlão, ele mostra a cidade de São Paulo como uma personagem, onde os protagonistas Rivaldo Torres e Teodoro Xavier vivem em meio à distopia e as ruas caóticas da grande São Paulo. A história em si é simples. Dois amigos de infância lançam um livro de poesia escrito a quatro mãos. Tudo isso acontece em um lugar nada comum, uma pastelaria onde o publico são prostitutas, cafetões, um suicida e claro, os dois jovens poetas. Ao decorrer do filme, a narrativa passeia em memórias de infância retratando todo o sentimentalismo poético e descobrimento de liberdade artística e o presente, no qual tudo que foi vivido na infância se realiza sem se preocupar com uma verossimilhança cronológica. Tudo isso acontece por conta do conceito de liberdade cinematográfica e politica imposta por Reichenbach. Liberdade essa onde o diretor realiza várias críticas contra culturais e sociais de uma forma cômica. Assim como as ideias da Nouvelle Vague (grande influência de Carlão), Alma Corsária é apenas uma forma de entretenimento que ao mesmo tempo é tão político e libertador como um manifesto anarquista. Muito interessante ver as referências mostradas no longa, principalmente as musicais onde Rivaldo se maravilha com discos de John Cage, Karlheinz Stockhausen e Edgar Varése, três compositores de vanguarda. Isso fica claro ao longo do filme através da trilha sonora na qual o próprio Carlão é o compositor.
Alma Corsária é um ensaio de liberdade e memória formando uma síntese, a amizade. Produto final de todo experimentalismo e poesia.

joão pedro liked this review