Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché

Be Natural: The Untold Story of Alice Guy-Blaché ★★★★

Alice Guy é uma cineasta que me fascina há anos. O documentário, que traz nova luz a sua vida e obra, tem uma estrutura que vai e volta e muda em cima de si mesma e, apesar da confusão, ele informa e emociona. Se, por um lado, quase nenhum dos depoimentos dos cineastas contemporâneos sobre o que pensam da obra dela acrescenta muita coisa (e talvez a exceção seja o desconforto e as poucas palavras de Ava DuVernay, que dizem muito), por outro o acesso a entrevistas em áudio e vídeo da própria Alice comentando sua trajetória e seu apagamento são inestimáveis. O esforço da diretora em conseguir desenterrar cartas, fotos e qualquer tipo de documento histórico que dê corporeidade a essa figura transparece e também enriquece a experiência de assisti-lo. O que impressiona, acima de tudo, é a facilidade com que meia dúzia de homens, do dono da fábrica que primeiramente empregou Alice aos historiadores de cinema que começaram a lançar seus tratados na década de 50, conseguiram ignorar e apagar a existência dessa mulher por tanto tempo. Não que seja algo orquestrado, mas a sincronia foi, infelizmente, perfeita. E é de partir o coração vê-la, velhinha, tentando recuperar seus créditos. Algo que eu sempre digo é “questione o cânone”. O cânone não nasceu pronto caído dos céus. O cânone tem um recorte específico e tem raça e tem gênero. E por fim, assista aos filmes da Alice Guy, não só porque são historicamente importantes, mas porque são deliciosos, inventivos, têm um humor próprio e são cinema da melhor qualidade.