In the Cut

In the Cut ★★★★

George Bataille, em seu livro chamado O Erotismo, trabalha muito bem o vínculo entre esse e a morte. Afirma que "para nós que somos seres descontínuos, a morte tem o sentido da continuidade do ser [...]. [...] a identidade da continuidade dos seres e da morte que são uma e outra igualmente fascinantes e essa fascinação domina o erotismo". Ou seja, o pensamento de morte, sua proximidade, seriam, de alguma forma, eróticos, e por isso "O erotismo dos corpos tem de qualquer maneira algo de pesado, de sinistro”.
Eu não vi esse filme na época, mas lembro perfeitamente de ter lido críticas negativas a seu respeito. É curioso porque, lançado em 2003, ele se insere, talvez um pouco tardiamente, em uma linhagem de thrillers eróticos, subgênero que fez tanto sucesso nos anos 1990, mas dessa vez com uma inversão de perspectiva possibilitada pela direção de Jane Campion, como um neo-noir às avessas. Não temos mais a figura da mulher sedutora como uma possível ameaça, mas a mulher que, perturbada e em dúvida, deseja, apesar de sentir a proximidade do perigo na figura de um serial killer. A estética atmosférica ajuda a ampliar essa sensação de perigo, que por sua vez se reflete na sexualidade latente da protagonista. Ela desconfia que o alvo de seu interesse erótico possa ser o assassino e, ainda assim, o interesse persiste. É a síntese da proposta de Bataille: a sedução da morte sentida na pele.
A escolha de Meg Ryan para o papel principal, nesse sentido, não poderia ser mais acertada, justamente porque ela era conhecida como uma "queridinha da américa" nas comédias românticas, mas sempre em filmes absolutamente isentos de qualquer sex appeal. Mesmo em Harry e Sally, na cena em que ela finge um orgasmo, trata-se de um orgasmo teatral, que cabe no propósito de cena. Mas sua relação com Harry é completamente dessexualizada (e tudo bem, eu também amo esse filme e funciona dentro daquela proposta). Mas, por isso, colocá-la nesse papel subverte as nossas expectativas em relação à personagem.
Não posso deixar de pensar que a recepção de Em Carne Viva foi (e é) afetada pelas imagens de feminilidade tradicional que são construídas por outras narrativas (incluindo essas comédias românticas, o que é extremamente irônico). Porque o que ele descortina é o desejo sexual feminino não só desvinculado do amor, mas nessa relação profunda com o perigo e a morte, e penso que essa proposta foi, à época (?), rejeitada por muitas pessoas em razão de suas próprias preconcepções sobre o tema. Uma pena: a crítica negativa fez com que muita gente (eu inclusa) perdesse naquele momento mais uma narrativa de construção complexa de Campion.

TLDR

Mulher também tem tesão errado™.

Isabel liked this review