Okja ★★★★

This review may contain spoilers. I can handle the truth.

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[conteúdo sensível][não é uma crítica do filme]
Acho que muita gente sabe que cresci meio na roça. Quando eu era criança, lá pelos meus oito anos, minha vó e meu vô tinham um porquinho. O porquinho tinha um nome, embora eu já não me recorde mais dele. Nós brincávamos com ele e fazíamos cafuné. Porcos reagem ao carinho e grunhem de satisfação. O porco crescia e engordava feliz e eu não sabia ainda o que lhe aguardava. No terreno viviam patos, marrecos, galinhas d'angola, gansos e galinhas que passeavam livres e morriam de velhice. A casa dos humanos ficava no alto de uma colina e as demais moradas no seu pé, rodeados por um pomar aos fundos e duas lagoas para diversão dos moradores, do lado oposto. Chegou a semana de Natal e o porco estava imenso. Os adultos se reuniram, tiraram ele de sua casa e levaram para a espécie de pátio que ficava na frente do galinheiro. Lá, em um poste, o porco foi amarrado, pendurado pelas suas patas traseiras. Até esse momento eu ainda estava observando tudo perplexa. De algum lugar alguém trouxe uma faca. Porcos gritam e choram. Virei as costas pro que se seguiu e corri como nunca antes, subindo a colina o mais rápido que pude, tapando minhas orelhas inutilmente. As lágrimas rolavam junto com os guinchos agudos e desesperados do porco. Foram dois dias de trabalho intenso que envolveu todos os adultos. Lavar as tripas, separar os miúdos, fazer morcilhas e linguiças e, por fim, assar o porco inteiro e coloca-lo sobre a mesa, com a cabeça e tudo. Meu vô gostava de comer o focinho. Algumas pessoas caçoaram de mim porque me recusei a comer o porco. Uns anos depois, quando assisti a versão dublada de Baby, o Porquinho Atrapalhado, vi o pato Ferdinando gritar "Natal é carnificina". As coisas fizeram sentido.

Resista, Okja!

Isabel liked this review