Drive My Car

Drive My Car ★★★★½

Dificilmente é o tipo de comentário que gosto de fazer por aqui, mas me parece o único possível nesse momento.

Minha bisavó está com câncer no colo do útero. Já sabemos disso há mais ou menos um mês, quando os episódios de mal estar dela se tornaram muito frequentes. No início dessa semana, ela precisou ser internada, em virtude de uma anemia e também em uma tentativa de iniciar radioterapia, a fim de diminuir o tamanho do tumor.

Há 3 dias, estávamos todos esperançosos que o tratamento seria iniciado logo. Além disso, ela começou a mostrar sinais de melhora, já estando consciente, conversando e assistindo TV. Porém, hoje meu pai foi informado que ela não aguentaria a radioterapia, devido ao estágio avançado do tumor e da idade dela.

Isso significa que é meramente uma questão de tempo. No momento, não sei se ela ficará melhor a ponto de conseguir voltar pra casa, ou mesmo se ainda a teremos conosco nessas festas de fim de ano. Não há previsibilidade alguma.

Volta e meia eu me pergunto se poderia ter feito algo pra que essa situação não ocorresse. Talvez devesse ter conversado mais com ela nesses anos, ou insistido com meu pai e avó para observar os episódios de mal estar dela em 2020 com mais atenção. Mas, sinceramente, especular faz alguma diferença a essa altura?

Drive my Car é revestido de imagens e palavras que me são extremamente necessárias nesse ponto da minha vida. Amar as pessoas é algo acompanhado de um instinto quase primal de querer suportar todos os fardos do mundo em decorrência desse amor. No entanto, algumas coisas simplesmente são do jeito que são. Todos estamos tentando fazer o nosso melhor, da forma que é possível, e é bom conseguir encontrar a sua paz nisso.

Jane Austen disse uma vez que a compaixão e a estima são consequências diretas do domínio da linguagem. Não sei se ele é um fã de Lady Susan como eu, mas impressionante como Hamaguchi parece ter essa verdade sedimentada, pois é na confluência dos diferentes tipos de linguagem (coreano, japonês, inglês, língua de sinais japonesa) que o filme encontra o seu potencial de gerar pathos. Nesse sentido, a apresentação final é uma das cenas mais preciosas que o cinema criou nos últimos anos.

Dito isso, não sei como serão as próximas semanas. Espero poder vê-la no Natal. Se não for possível, sei que vou dar algum jeito de seguir vivendo. No final de tudo, só existem duas certezas: longos dias e longas, longas noites esperam; e Drive my Car é o melhor filme dos anos 2020 até o momento.

João Ricardo liked these reviews