The Beatles: Get Back

The Beatles: Get Back

Escuto Beatles desde o primeiro encontro com os vinis do meu pai. O meu presente de aniversário de 8 anos foi o VHS de A Hard Day's Night (na versão dublada em castelhano). Quando era criança, vi tantas vezes Yellow Submarine que tenho algo psicodélico na imaginação desde então e, desde a adolescência, acho que vi todas as onze horas da The Beatles Anthology pelo menos umas cinco vezes. Então, posso dizer com alguma segurança que estava incluído desde o início no público-alvo deste documentário, mas também acho que há nele muito mais do que aquilo que pode interessar ao fã da banda. Ao restaurar os quilómetros de película original e remontá-los em quase 8 horas, Peter Jackson conseguiu um feito extraordinário. Além de reestabelecer a verdade histórica sobre momentos que foram alvo de especulação até hoje, ele aprofundou uma dimensão que era aflorada, mas não esclarecida, no filme Let It Be de 1970. The Beatles: Get Back é sobre os Beatles, mas é principalmente sobre o processo criativo enquanto uma sucessão de frustrações, pequenos sucessos e constantes adaptações duma visão original às coisas do mundo e, neste caso, do coletivo. É um caminho duro, cansativo e em que muitas vezes se dão dois passos para trás para se poder dar um para a frente, mas, no final, com esforço e alguma sorte, pode-se conquistar algo glorioso — mesmo que isso seja a polícia vir-nos desligar os amplificadores porque estamos a fazer muito barulho. The Beatles: Get Back tem aquela característica das grandes obras de fazer-nos sentir privilegiados por a podermos ver e é um marco absoluto do encontro do cinema com a música e a cultura popular. Chamar-lhe "imperdível" é dizer pouco.

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