Titane

Titane

Putting the "trans" in Trans Am
Em The Fy, Cronenberg sublinhou uma ideia premente na figura do monstro ficcional: a ele está associada uma ética corporal, como se a deformação física fosse admissível até um certo ponto, a partir do qual ela entra no terreno do proibido. Isso leva o espectador à descoberta dum dilema (por isso também que o gênero é profundamente moral) quando pensa «este indivíduo tem que morrer porque o corpo dele não deveria existir». Condenamos à morte um corpo porque, de repente, ele ultrapassa as nossas construções do humano e do natural: ele ultrapassa o limite em que a própria existência é sustentável. Mas em Titane Ducournau parte da premissa cronenberguiana para chegar num outro lugar. O corpo da sua protagonista é moldado, maleado, torturado, o seu gênero é questionado, expandido, desintegrado. Porém, nunca chegamos ao ponto em que a sua existência seja questionável, pelo contrário: é como se ela precisasse de ter o seu corpo deformado além do natural para se concretizar enquanto pessoa. E parece-me que, com isto, Ducournau resolve aquele dilema moral de Cronenberg: não é tanto a deformação exacerbada em si mesma que anula a humanidade intrínseca de um corpo, mas o fato de ela levar o seu portador à incapacidade de empatia e bondade. Aqui, temos o exato oposto. Por isso, talvez a verdade mais chocante sobre Titane seja a de ele parecer ser um filme extremamente esperançoso.

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