Pi ★★★½

A tela é dominada por uma profusão de números e algoritmos. O som que ouvimos dialoga diretamente com o que vemos em tela: música eletrônica mesclada com ruídos e sons agudos. As imagens subsequentes comportam uma fotografia p&b em alto contraste, suficientemente bela e incômoda. Aronofsky realiza seu primeiro longa-metragem com muita energia, se apoiando na ideia da descoberta de uma razão/um padrão que explique o todo, o universo, a existência. É com essa ambição que o diretor tenta explorar os artifícios do suspense para invadir a cabeça de seu protagonista (interpretado com bastante personalidade por Sean Gullette), lançando mão de elementos surrealistas (uma porta que é misteriosamente arrombada por ninguém; um epílogo que não se sustenta inteiramente como realidade) e de informações subjetivas através de elementos visuais e sonoros (não apenas o voice over frequente, mas todos os ruídos que permeiam a trilha sonora).

Ao utilizar a montagem como um verdadeiro agregador de ideias, Aronofsky e Oren Sarch orquestram esses códigos (o trabalho de câmera e o design de som que conduzem ao suspense e à paranoia) e constroem um filme claustrofóbico mesmo quando somos levados para locações externas. A lembrança mais proeminente que carrego de Pi é o rosto de seu protagonista. Maximillian Cohen carrega/reverencia seus axiomas obsessivamente, uma vez que sua vida depende de uma rotina rigidamente controlada. Brilhante com os números, ele passa a maior parte de seu tempo enfurnado num apartamento minúsculo, recheado de bugigangas tecnológicas, na busca por um padrão que irá revelar não apenas o sistema por trás do mercado de ações ou o time vencedor do próximo campeonato de beisebol, mas o sentido da vida como um todo. Para ele, pelo menos.

O som de um casal transando no apartamento do lado parece ser o suficiente para desestabilizar Max, que precisa de constantes comprimidos e injeções para voltar ao estado normal (o que parece nunca de fato ocorrer). Tal qual o próprio filme, seu protagonista jamais distancia-se do estado de alerta absoluto. Tudo acontece a todo tempo sem qualquer descanso. Na mente do personagem e na tela. O frenesi é construído não aos poucos, mas desde o primeiro frame. Sem parar. As poucas pausas ficam por conta dos diálogos entre Max e seu mentor, Sol Robeson (Mark Margolis - figurinha marcada em quase todos os filmes de Aronofsky, hoje muito lembrado por seu Hector Salamanca de Breaking Bad), sempre acompanhados por uma partida de Go (espécie de jogo de tabuleiro oriental que envolve enorme capacidade estratégica). No entanto, esses momentos não são suficientes para conter o ritmo alucinante do filme, o que gera lá pelo segundo ato uma sensação de cansaço não muito bem-vinda para um filme que se propõe a discutir conceitos tão complexos como temos aqui. Só para dar um exemplo de como essas pausas podem ser necessárias até mesmo quando o objetivo é incomodar o espectador com um ritmo vertiginoso, uma das melhores cenas do filme é aquela em que Max e Sol discutem sobre a coroa de ouro de Arquimedes e como sua descoberta apenas foi possível porque ele aceitou o conselho da esposa e resolveu tomar um banho para finalmente descansar um pouco. Ao ser questionado sobre a moral da história, Max só consegue afirmar que "uma hora ou outra Arquimedes descobriria o método para determinar o volume de um objeto", mas Sol o puxa para a realidade expressando exatamente o oposto, que nenhum momento pode ser completamente eficaz sem descanso. Em outras palavras, a obsessão do protagonista apenas o levaria ao fracasso - esta última frase se relaciona também com a dicotomia entre conhecimento e destruição presente ao longo de todo o filme, nos remetendo, mais especificamente, à cena em que Max, alucinando, se depara com um cérebro humano no chão de uma estação de trem, como se a tentativa de alcançar um conhecimento cada vez mais profundo não pudesse causar outra coisa senão o colapso.

O terceiro ato de Pi é responsável por resolver algumas subtramas desinteressantes. Logo, as cenas envolvendo o grupo de judeus (Aronofsky comentando sobre sua própria origem judaica?) e a mulher que persegue o protagonista desde o início do filme são minutos preciosos relegados ao tédio. A conclusão em si do principal conflito é eficiente, representada por uma cena chocante filmada sob à luz do mesmo ambiente que nos vemos confinados durante todo o filme, mas que nos coloca diante de um personagem cujas angústias agora também nos são caras. Somos, neste momento, incontestavelmente empáticos para com Max, e seu ato final seria uma tragédia se não fosse o lirismo do epílogo.

Pude perceber alguns pontos de contato entre seus curtas anteriores e os longas que o diretor faria depois. O maior deles talvez seja a predileção pela paranoia como um estado que ilustra as obsessões do ser humano (Fortune Cookie, Cisne Negro, etc.) - algo frequente na filmografia de Roman Polanski, claramente uma das grandes referências de Aronofsky na construção de seus personagens. Interessante também notar como em Pi temos a presença de Stanley B. Herman interpretando praticamente o mesmo personagem de Fortune Cookie, primeiro curta-metragem do diretor, e da função da cabeça raspada como elemento vinculado à espiritualidade (Fonte da Vida).

No mais, ao ler algumas críticas do filme, me deparei com um texto escrito por Érico Assis em 2002 para o Omelete onde ele observava, na ocasião, que Aronofsky estaria sendo cotado para dirigir Watchmen e um projeto intitulado Batman: Ano Um. Não pude deixar de pensar, evidentemente, que poderíamos estar vivendo num universo alternativo onde Aronofsky estaria conduzindo o universo de super-heróis da DC no lugar de Zack Snyder, já pararam para imaginar como seria uma coisa dessas? É, talvez seja melhor ficarmos por aqui.

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