Requiem for a Dream ★★★★

This review may contain spoilers. I can handle the truth.

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Logo na primeira cena de "Réquiem para um Sonho", Hubert Selby Jr. e Darren Aronofsky nos apontam a grande questão do filme: as mentiras que contamos para nós mesmos e as ilusões criadas pela nossa própria mente com o objetivo de nos mantermos de pé num mundo caracterizado primordialmente pela dor, pelo sofrimento e pela solidão. Tudo resumido na seguinte frase de Sara (Ellen Burstyn), que parece falar com algo ou alguém que não vemos: "Tudo acabará bem, você vai ver. No fim, tudo acabará bem".

Para além de seu parceiro roteirista, Aronofsky mantém ao seu lado o produtor Eric Watson, o diretor de fotografia Matthew Libatique, o designer de som Brian Emrich e o compositor Clint Mansell, obtendo, desta forma, a mesma unidade e sintonia de Pi, seu longa-metragem de estreia. Neste sentido, a mudança mais incisiva ficou à cargo da inclusão do montador Jay Rabinowitz (parceiro habitual de Jim Jarmusch), que apesar de assimilar as ideias já propostas por Aronofsky em seus trabalhos anteriores, amplia ainda mais o conceito estético da obra e confere um repertório amplo e funcional para a condução do ritmo do filme. Nesta revisão, me vi encantado com a destreza que Rabinowitz demonstra, inclusive, em cada transição de planos. As fusões, os "fade-to-silver" e, sobretudo, a utilização do split screen me soaram como um enorme acerto criativo entre direção e montagem.

Há uma cena em particular, quando Harry (Jared Leto) e Marion (Jennifer Connelly) conversam lado a lado, deitados na cama, num dos raríssimos momentos de contemplação do filme, em que toda a ação é mostrada através do split screen. Este é um recurso utilizado com frequência para aproximar personagens ou ações que por alguma razão estão distantes, no tempo ou no espaço, umas das outras (Harry & Sally: Feitos um para o Outro, Noivo Neurótico, Noiva Nervosa e Suspense são exemplos clássicos). Ao retratar com esta técnica dois personagens que já estão próximos e uma ação que ocorre num mesmo tempo e lugar, o resultado é a mutilação dessa imagem, desses corpos, e a imediata percepção de que solidão não é exatamente o oposto de "estar acompanhado". Harry e Marion percorrem o corpo um do outro com as mãos, fazem planos e compartilham seus medos e angústias ("você poderia dar jeito na minha vida", Harry não se contém). Essa é uma das muitas provas de que Réquiem para um Sonho não é apenas um amontoado de técnicas exibicionistas proferindo moralismo barato. Sim, há exageros e inconsistências, mas não o suficiente para deixar opaca toda a criatividade envolvida aqui.

Um elemento evocado à exaustão me incomodou bastante dessa vez: as lentes grandes angulares escolhidas para reforçar a paranoia vivida pelos personagens são funcionais, mas sua utilização em excesso nos transmite mais didatismo do que desconforto. Aliás, é com o mesmo didatismo que somos avisados do início e do fim de cada ato do filme através das estações do ano (Verão, Outono e Inverno), que são refletidas no peso que a trama carrega ao longo de sua duração.

Uma das grandes preocupações aqui é reforçar a todo momento o clima de solidão e paranoia. Percebemos isso através da imagem, manipulada em diversos momentos com uma textura bastante "grosseira e suja"; de cenas como as de Sara na clínica (o médico que sequer olha nos olhos da paciente) e as de Marion com seu terapeuta (Sean Gullette, que faz seu personagem mastigar com tanta pressa que o desprezamos no primeiro momento em que o vemos); ou através das cores evocadas pela fotografia e pela direção de arte (azul, laranja, verde e cinza são frequentemente usados nos ambientes, móveis e objetos dos apartamentos).

O vermelho (do vestido de Sara - e também de Marion, na alucinação de Harry numa ponte-cais) também possui papel importante na narrativa. O entendimento de que o passado é um lugar seguro e, portanto, desejado (e o vermelho usualmente está ligado a este sentimento, apesar desta relação não ser tão óbvia aqui), tanto por parte de Sara quanto de Harry, este a partir de sua mãe, é o que os levam a tomar cada decisão. Não sei ao certo até que ponto esse argumento do passado/da memória consegue ser bem articulado com os outros aspectos da obra (Tyrone, o quarto protagonista, interpretado com competência por Marlon Wayans, é desenvolvido a partir de suas lembranças de infância com sua mãe, mas não o suficiente para que consigamos enxergá-lo com a profundidade necessária). Existe, portanto, um problema de roteiro ao negar essa construção tanto de Tyrone quanto de Marion, cujo background jamais nos é devidamente apresentado, à exceção de uma singela linha de diálogo sobre sua opulenta família.

E não há como escrever uma frase (ou mil e duzentas palavras) sobre Réquiem para um Sonho sem nos dedicarmos ao trabalho de Ellen Burstyn. A convite de Aronofsky para o papel, a veterana atriz (O Exorcista, Alice Não Mora Mais Aqui) topou não apenas interpretar uma personagem, mas desafiar a própria carreira. Eram necessárias quatro horas por dia apenas para a produção de maquiagem, próteses, perucas e figurino. Para uma atriz de 68 anos (à época das filmagens), todo esforço físico e psicológico empregado no desenvolvimento do corpo e da mente desta personagem não deve ter sido fácil. Uma das cenas mais impressionantes do filme e que evidencia todo esse esforço na tela é o diálogo entre Sara e Harry na mesa de jantar. Ela, já bastante alterada pelos medicamentos, alterna entre picos de felicidade e desespero ao expor ao filho seus desejos, medos e angústias. A entrega de Burstyn nesta cena é admirável e a maneira como Aronofsky a decupa é brilhante, sobretudo pelo plano final, talvez o mais significativo do filme, justapondo Sara, à direita, e o vazio, à esquerda, deixado pelo filho que acabara de sair pela porta.

Os 102 minutos do longa-metragem são orquestrados pela magistral e icônica trilha sonora composta por Clint Mansell e pelo frenético desenho de som de Brian Emrich. Talvez os dois colaboradores mais importantes para o desenvolvimento da linguagem do cinema de Darren Aronofsky. A busca por representar visualmente, mas sobretudo sonoramente, como a mente de cada personagem se comporta ao longo do filme é uma obsessão de seus realizadores: o som do ponteiro do relógio e do ranger dos dentes de Sara; os ruídos que acompanham cada imagem, sobretudo na utilização do fast cutting; a comida, os objetos e os cômodos que parecem emitir sons muito particulares, ressaltando ainda mais a subjetividade pela qual as imagens nos são transmitidas (a geladeira que aterroriza Sara, por exemplo).

Cada elemento sonoro e visual parece estar no lugar certo com o principal objetivo de causar desconforto no espectador (me lembro exatamente do péssimo estado em que saí da sessão do filme, quando o vi pela primeira vez aos 15, 16 anos de idade). Desta vez, o impacto não me foi tão avassalador. Claro, não poderia ser diferente, uma vez que o choque é uma das principais artimanhas usadas por Aronofsky para conduzir sua narrativa (não que isso seja um problema em si, evidentemente). Se antes a questão das drogas e a náusea causada pelo ritmo da montagem e pelos artifícios sonoros utilizados, sobretudo no terceiro ato, era o que mais havia me marcado, hoje me atenho muito mais à solidão desses personagens. Solidão tal que é sempre mais e melhor percebida nos planos em que, paradoxalmente, eles estão juntos: seja no abraço de Harry com Sara (na sala de jantar ou nos devaneios de um programa de TV), seja na sua troca de carinhos com Marion na cama, unidos e separados pelo quadro. Uma mudança justa de perspectiva: antes o coração dilacerado à pupila dilatada.

luznofimdatela.wordpress.com/2017/08/31/requiem-para-um-sonho/