Werewolf ★★★

A diretora canadense Ashley McKenzie demonstra muita personalidade em seu primeiro longa-metragem. “Lobisomem” tem belíssimos planos que ganham força e significados múltiplos e poderosos ao serem interpretados: a escolha por trabalhar frequentemente com closes e planos detalhe permite que fiquemos mais conectados aos personagens, ao passo que jamais conseguimos compreender seus sentimentos com precisão, justamente por sempre enxerga-los apenas em parte, física e psicologicamente. Os enquadramentos inusitados dão conta desse objetivo, e constantemente somos expostos aos corpos dos protagonistas por partes (as pernas de um, o tronco de outro; as cabeças cortadas e os braços que parecem flutuar no espaço vazio). Fica bem claro que a câmera de McKenzie é obcecada por aqueles corpos brancos e esguios, e também por suas ações e reações um perante o outro. “Pode ser muito ameaçador quando a pessoa muda”, diz um médico para um deles. Essa frase dá conta de um dos maiores dilemas do filme: até que ponto estamos preparados, como seres humanos, para lidarmos uns com os outros e até onde vai a nossa capacidade de amar e ser amado sem que nos machuquemos? As respostas não nos são dadas, mas algo ainda melhor e mais amplo nos é oferecido: o cotidiano desse casal viciado na própria cura. Dependentes de metadona, narcótico utilizado no tratamento dos toxicodependentes de heroína e de propriedades semelhantes às da morfina, Nessa (Bhreagh MacNeil) e Blaise (Andrew Gillis) precisam diariamente bater de porta em porta oferecendo serviços de jardinagem com um cortador de grama velho para pagar as despesas médicas e sustentar o próprio vício. Obviamente as doses controladas e medicinais da substância não os saciam, e logo a necessidade de conseguir cada vez mais os leva a cometer atos duvidosos e as consequências não são nada favoráveis. A montagem da é também assinada por McKenzie numa aparente tentativa de garantir um controle absoluto para que a trama não se transforme num filme convencional sobre o uso de drogas, e por mais que o ritmo do filme seja prejudicado no processo, seu objetivo é alcançado. Alguns excessos narrativos destoam do aspecto geral e soam deslocados, como as imagens de um jogo de videogame que em determinado momento preenchem a tela, mas nada que apague a consistência da obra. “Lobisomem”, no final das contas, é tão enigmático quanto seu próprio título, e suas imagens mais potentes – um cortador de grama em primeiro plano que separa o casal em dois extremos do quadro sendo a mais marcante delas – resguardam a melancolia e a força de uma fábula traduzida no cru e documental estilo de sua realizadora.

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