Irreversible ★★★★½

Foda-se, eu gosto disso. Tentar explicar o porquê. Antes de tudo, melhor tradução estética do que é a junção de estresse pós-traumático e consumo de drogas que eu já vi.

Não é um filme sobre uma mulher violada, o foco é sobre um homem que tem sua propriedade danificada. Trata-se justamente do oposto de “Baise-moi” – o descarrego catártico das vítimas -, no qual o irmão da protagonista queria fazer exatamente o que Vincent Cassel faz aqui antes de tomar um chega-pra-lá pra recordar ao espectador quem são as protagonistas daquela obra. Inclusive a Virginie Despentes conta que o Noé foi um dos grandes incentivadores a lhes dizer para fazer o filme delas daquela maneira sem concessões. Esse contraste lembra-me uma questão que o “Stromboli”, do Rossellini, já me havia suscitado: quem é capaz de conceber as violências mais sádicas? A imaginação do oprimido com medo do que poderá lhe acometer ou a mente do opressor a cogitar a dor que possui o poder para infringir?

“Irreversível” é, portanto, uma obra puramente falocêntrica e, logo, amoral e demente. E o seu estilo replica e se adequa ao pathos da masculinidade ferida tanto na estética de um exibicionismo despropositado quanto no clímax narrativo que se dá numa boate gay, onde o macho é desafiado no seu altar interno de dominante sedutor. “Os homens costumam imaginar que as mulheres têm imensa vontade de os seduzir e de os provocar. Isto é uma pura projeção homossexual: se eles fossem do sexo feminino, o que eles mais gostariam seria poder excitar outros homens” (Despentes, King Kong Theory). É bastante compreensível que essa associação estética do filme a um ethos absolutamente repulsivo acarrete na rejeição pela obra, mas também é onde reside seu valor enquanto experiência sensível, na medida em que eu não vejo o filme como exposição ideológica do que quer que seja e sim como exibição inconsequente das ações decorrentes de um discurso sem que o mesmo seja sequer esmiuçado. A vantagem do Noé é, justamente, tentar fazer videoclipe e não sociologia. Penso também em Leni Riefenstahl na forma como se dá essa transposição para o meio cinematográfico – com a diferença de eu não crer que o Noé simpatize com os personagens masculinos do filme da mesma forma que a Riefenstahl simpatizava com os nazistas que retratava.

Aí é isso né, compreensível que essa tradução por via duma estética afetadíssima acarrete em certa autoindulgência de rock progressivo dançando no limiar do metal farofa, embora eu veja a provocação desejada como irmã do punk que a Despentes pratica porque “nos afastamos dos critérios da beleza clássica. Quando sou internada, com quinze anos, o psiquiatra pergunta-me por que razão me quero desfear daquela maneira” (idem, ibidem). Mas suponho que seja mesmo impossível gostar desse filme sem ter algum apreço por Deodato (no que é violento e sádico beirando o sem-noção) e Kubrick (no que parece – não vou nem dizer “é” – ser robótico e sem emoção).

Qualquer tese sobre o Tempo que o filme possa ter é boba. Os cinco minutos finais são bem ruins. Mas o Noé é subestimado como diretor de atores. Ele alcança uma espécie de naturalismo bastante interessante nos planos-sequencias que sobrevive para além do pavoneio.

Report this review