Queen of Niendorf ★★★★

Quarentena sei-lá-qual-dia: deve ser o isolamento social falando, mas queria ter uma filha para mostrá-la esse filme. Dias vadios de verão, a inocência lúdica da infância, a turma do bairro, as coisas que fazemos para nos enturmar — crianças podem ser bem cruéis umas com as outras — e como se solidificam os laços de amizade. As crianças brincam em uma cidade esvaziada — reflexo de tendências demográficas que deixam o interior com uma população formada por gente ou muito velha ou muito nova; afinal, trata-se de um ambiente rural onde visivelmente não se produz mais nada (as máquinas agrícolas são como ruínas) —, capturam-na para o seu recreio.

No que a prefeita quer transformar aquilo? O mal à espreita é o credo de que a gentrificação é o sentido da história, seu fim inelutável e ativamente planejado por quem tem a lucrar com isso — ou só deseja segregar mesmo. Primeiro, acabam os empregos; depois, a especulação imobiliária age para se apropriar dos terrenos de quem não tem como pagá-los ou protegê-los de tal predação — ver também: La villa (Robert Guédiguian, 2017). Será preciso recorrer à pureza de um olhar infantil para expor o certo e o errado?

Lea is the coolest girl, nenhuma discussão quanto a isso. Belíssimo trabalho da diretora de fotografia Lydia Richter e da realizadora Joya Thome — por sinal, filha do grande Rudolf Thome, que chegou a filmar algumas vezes naquela mesma casa. Se ainda houver mundo daqui a 10 anos, seria muito curioso ver uma sequência.