Under the Silver Lake

Under the Silver Lake ★★★★

Às vezes esquecemo-nos da origem da melodia que nos persegue. Eu, por exemplo, não me recordo se foi Joan Didion que descreveu a Califórnia como um espaço em que o novo estava sendo constantemente inventado por cima do antigo, um deserto sem passado perceptível a olho nu, onde o futuro já é agora, e o imediatismo requere uma paisagem despudorada quanto a repaginar-se por completo conforme a ordem do instante. E não seria o “perigo indígena”, a permear os westerns, uma aversão à História que não se deixa apagar?

Hollywood tornou-se o centro da indústria cinematográfica norte-americana por ser tão longe de tudo que ali era possível escapar ao cumprimento da lei de patentes – sim, a ironia, sempre ela. O deserto ensolarado era o nada, mas agora já é depois do nada. E, depois do nada, constrói-se uma tradição – com seus reis, santos, mitos, ritos, dogmas, mistérios, iconografias. O ar abafado em que arfam ansiosos os escribas diante dos pergaminhos que já não se deixam transformar em palimpsesto. Além de tudo, nesse planeta à beira do colapso climático, encontramo-nos na curiosa era do: DEPOIS DE TUDO, ANTES DO NADA.

“Under the Silver Lake” é meio que o irmão desajustado de “Ready Player One”: espelham-se do ambiente lúdico de jogo cabalístico ao sumiço do velho – ora mais guru, ora mais tarado. Ambos creem no potencial da cultura pop norte-americana como linguagem comum, como paisagem compartilhada, o mais eficiente caminho para a comunicação em detrimento de manuais antiquados como bíblias ou constituições.

No frigir dos ovos, é muito menos genial do que se crê: em parte, devido ao esforço descomunal em ser incompreendido – “The French will love this shit”, até posso ouvir alguém dizendo –, extremamente calculado para ser desaplaudido pelos mesmos que aplaudirão o rolê do Cuarón – se bem que, no que concerne a relação entre calculismo e arte, eu sempre lembro que o Ford instalou ventiladores com o propósito de levantarem o véu da Maureen O’Hara em “How Green Was My Valley”, gesto programado a que chamaram sorte, estado de graça e congêneres raios que o partam.

Cheira a “cult movie à la carte”. Menos idiossincrático do que, digamos, “The Brown Bunny”. O David Robert Mitchell tem algum plano para dar prosseguimento à carreira depois disso? Como, um tanto involuntariamente, Alexandre Pato certa vez nos ensinou a respeito dos pênaltis de cavadinha: o cerne da questão está no quão ridículo você parecerá caso perde-lo. De qualquer maneira, há algum prazer em assistir o mais próximo que o Rivette chegará de dirigir um episódio de Californication – vide as referências ao Kurt Cobain (o primeiro CD que comprei na vida foi do Nirvana, o que deve ter me ensinado uma ou duas coisas sobre construir destruindo).

“Vou referir-lhe um grupo de que gosto muito, mas que foi completamente assassinado: os Nirvana. Aquilo tinha tudo: a poesia, a paixão, a política, a economia. Se for ao YouTube ver os vídeos de quando eles iam receber os prémios, verá que eles não eram parvos. Há uma intervenção, na aceitação de um prémio da MTV, em que eles dizem: “não se esqueçam do Goebbels!”, como que a dizer: “tenham cuidado com as coisas que vos vendem. Nós estamos aqui no meio desta fancaria toda, mas não somos parvos”. E a música deles era extraordinária, mesmo a letra do mais banal “Smells like teen spirit” é muito bem conseguida. É muito complicado chegar àquela simplicidade” – Pedro Costa

Um easter egg curioso é que a atriz/prostituta ruiva é a americana ruiva do “Après Mai”, do Assayas, então, a todo momento, eu ficava situando o filme nos anos 1970. Afinal. tudo que começa como utopia acaba como festa flopada – stinking like teen spirit.

“We should fuck”
“You are a patron for the arts and I can pay my bills”
“Are you telling me you don’t know who wrote your own hit songs?"
“There’s no rebellion. There’s only me earning a paycheck”
“There’s no getting out now, so I may as well make the best of it”
[corta para o letreiro de Hollywood]

www.youtube.com/watch?v=8d1QNGmCeFU

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