The Exterminating Angels

The Exterminating Angels ★★★★★

O cinema de Brisseau é o cinema do olhar. E de tudo o que pode surgir disso. Do observador ao observado, do espectador ao filme, do diretor ao ator, do dispositivo ao artifício. É uma relação muito íntima entre o poder que um olhar reverbera que se estabelece com o gesto de poder contido no ato sexual e no prazer. O mais complexo do filme de Brisseau está concentrado num simples olhar e seu efeito transgressor tanto no que o provoca quanto no que está em sua mira.

A relação entre sexo e poder está ligada à relação entre imagem e realidade. No cinema, até que ponto a mentira vai? Em que ponto a verdade se revela? Não é tudo uma ilusão? Brisseau põe isso em xeque ao contextualizar, num exercício metalinguístico riquíssimo, a força que se instala no poder da imagem, e consequentemente, da observação. Ele não se interessa propriamente nas respostas, mas no caminho até elas (se é que existem respostas). A construção fotográfica é praticamente completa, tal é o tratamento que as imagens e os planos do diretor recebem. Todo esse cuidado com o filme e com o que está sendo mostrado, geram uma mais que extraordinária obra, que é uma das maiores (sem dúvida) do século.

É um mais que perfeito par para "Coisas Secretas", o (gigante e igualmente magistral) longa anterior do cineasta que arquitetou, com uma intensidade parecida, um diálogo genial sobre a força erótica da imagem e as relações de poder estabelecidas entre o sentir e o ver.

Porque, sobretudo, o olhar é o mais primitivo e intenso gesto de poder. E um gesto de poder sempre começa com um olhar. Se esse filme aqui não é uma obra-prima e Brisseau não é um dos cineastas mais importantes do cinema atual, então eu não sei mais o que é.

Lucas liked this review