American Sniper

American Sniper ★★★★½

Filme faz um trabalho tão impressionante em criar a causa/consequência da cultura estadunidense dentro da máquina de guerra americana que só escancara como grande parte das pessoas não entende o mínimo de cinema. O Eastwood trabalha sempre na mesma dinâmica da existência do seu Kyle: com valores e a mitificação tidos como dados - restando, para o diretor, só essa possibilidade de flexibilizar e criar uma dialética em cima disso. Quem sabe seja isso que incomode quem é de esquerda, já que Clint em momento algum quer questionar a existência de Kyle como herói, e sim entender o que esse herói realmente significa e como ele se cria e toma forma. Ele pega um material que, claramente, glorifica tudo aquilo e transforma num filme extremamente profundo sobre a mentalidade de toda uma nação.

Kyle encarna plenamente toda uma mitologia tradicional - "god, country and family, right? -, assim como o funcionalismo da sua tarefa (lembrando o Sully, que negava um heroísmo em nome simplesmente de estar fazendo "sua tarefa"), e nunca questiona nada disso. Aí que a atuação do Bradley Cooper é tão genial, colocando uma alienação latente ao lado de um personalismo que nunca deixa de existir - porque é justamente aí que Eastwood, do alto do palanque republicano, se diferencia da imensa maioria dos cineastas esquerdistas, ao negar uma caricatura do que se quer criticar. A caricatura é todo o universo, o iraquiano, os parceiros do exército, a família e toda a nação americana, porém Kyle em momento algum entra no clichê Soldado [Assassino] Sem Alma.

Muito se fala de como o filme ignora os motivos (falsos ou não) da guerra, mas esse é justamente um dos detalhes mais elegantes e geniais dele, já que o filme, enquanto reflexo de Kyle, só evidencia como, para ele e para a imensa maioria dos americanos, o motivo nunca importou. Importou o revanchismo pós-9/11, a masculinidade frágil, o ego ferido de quem acha que tem o dever de proteger. Assim como, nas cenas de invasão às casas no Iraque, em momento algum Clint evidencia o que acredita, mas tudo que surge dali é o horror - a invasão à propriedade privada, tão prezada pela direita, que nunca cria nada, nunca leva a nada, só à morte de uma família.

Toda essa sutileza da encenação para lidar com os temas remete muito a como a estruturação do filme obriga o Eastwood a isso, com as cenas dramáticas em solo americano existindo de uma forma atemporal, interrompidas, e o tempo só existindo quando Kyle está na batalha - e mesmo ali há sempre objetivos muito claros e delimitados. Então existe essa tarefa de tratar tanta coisa com tão pouco, e hoje não existe alguém melhor do que o Eastwood para isso.

A última cena é emblemática nesse aspecto. A ultimate utopia americana, com direito a armas, violência normatizada, continuidade de tudo que levou à guerra (Kyle ensinando o filho a caçar enquanto ato violento mesmo), heteronormatividade e etc, sendo finalizada pelo fruto da própria violência, pelo trauma máximo - sobrando, então, a realidade. Aterrador.

Luiz Eduardo liked these reviews