Da 5 Bloods

Da 5 Bloods

This review may contain spoilers. I can handle the truth.

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Curiosamente - e para um provável horror do Spike Lee - o filme que me veio à cabeça após terminar este foi o Sniper Americano, do Clint. Não que tenham qualquer coisa semelhante em execução, porém ambos operam sob essa linha de PTSD dentro de uma dinâmica social/cultural. A diferença está em como, para Clint, o círculo da tragédia do trauma se fecha com Kyle "curado" após voltar para casa, replicando a exata mesma mentalidade que levou à guerra, sendo assassinado por esse mesmo trauma; já aqui o círculo já estava fechado desde o começo, numa batalha sem motivação real, por um país do qual eles sequer se viam como parte integrante. Kyle entende que lutava por toda uma cultura que o assassina - os Bloods lutaram pela cultura dos outros.

Cultura que desde a situação inicial do filme, com as imagens de arquivo, nasce apodrecida. Nesse sentido, se o BlacKkKlansman parecia um filme sobre a era Trump, sobre as ondas neofascistas e racistas fortalecidas ali, aqui é um filme sobre os últimos 50 anos: do trauma à prosperidade e de volta novamente. Trauma não só da guerra, mas da existência naquele momento, naquela altura. Pouco importa o fato de Paul ser um apoiador de Trump pro filme, Lee está muito mais interessado no peso de todos os anos com a dor e culpa e da instabilidade gerada delas - do idealismo ao fracasso. E o PTSD enquanto eterno retorno ao mesmo espaço, mesma mentalidade.

Esse eterno retorno, ou o círculo da tragédia do trauma, nunca é resposta em si mesma dentro do filme, que, aliás, nunca apresenta resposta alguma para suas problemáticas - talvez por deficiência do Spike Lee, talvez por escolha mesmo. Filme está a todo momento mais interessado em encenar e sobrepor essas narrativas e encenações conflitantes. Vários e vários filmes dentro de um.

Concordo com várias críticas sobre o filme por aí, dramaticamente o filme é sempre inerte (impressão que o personagem do filho só funciona nos momentos finais do filme) e no seu andamento parece sempre apelar para o mesmo tipo de conflito previsível. Mas ao olhar o todo Lee faz um filme de guerra como poucos, respondendo à contradição de se filma violência em um filme antiguerra ao ser a contradição em si, assumir a veia pulp e aventuresca, assumir as contradições - recriar a guerra e matar os seus heróis.

"I wish I could turn back the hands of time... I can't. Nobody can"

Luiz Eduardo liked this review