Necropolis Symphony ★★★★

This review may contain spoilers. I can handle the truth.

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A primeira cena me fez pensar que o tom do filme seria bem mais soturno, mas isso logo é desconstruído e, uma vez que percebi que se tratava de outra coisa, fiquei curioso para saber como Juliana Rojas iria conciliar uma abordagem mais agradável com um cenário do qual se espera o sinistro. Para minha surpresa, ela faz isso muito bem.

Para concretizar isso, ela aposta num visual mais limpo, menos cru do que um cemitério sugeriria, uma fotografia digital bastante nítida e definida que busca não a brutalidade da morte, mas sim que possíveis relações se dão entre os que a rodeiam. É uma fotografia que eu gosto muito e parece o início do estilo que a diretora e Marco Dutra buscariam depois em “As Boas Maneiras”. Além disso, principalmente, existe uma certa infantilidade burlesca no modo como as dinâmicas do filme são encenadas, não só os números musicais, isso passa para as cenas num geral, o que confere leveza à trama. É quase como se fosse um conto infantil para crianças dormirem, ou mesmo uma peça quase infantil, onde o cemitério é como o palco onde se desenrola a ação e os personagens entram e são apresentados de maneira bastante marcada. Mas não chega a ser totalmente isso por causa das partes mais “adultas” que a trama traz, como o enredo administrativo ou, mais especificamente, o sexo no carro funerário. Essa, aliás, é uma cena que demonstra muito bem a natureza do filme e a dinâmica em que se ampara sua condução, já que é algo absurdo e impensável que mistura o repugnante ao cômico, produzindo uma série de situações inusitadas que equilibram bem atmosferas mais em humoradas com outras um pouco mais dramáticas (como a cena em que Deodato toca órgão depois da partida de Jaqueline) e outras mais enervantes (como o começo da cena em que Deodato está vigiando o cemitério).

A única coisa que me incomodou foram as atuações de Eduardo Gomes (Deodato) e Luciana Paes (Jaqueline) que, no intuito de conferir leveza às cenas, variam pouco em entonação e expressões, o que, embora contribua proveitosamente para uma certa teatralidade, torna a relação entre eles menos envolvente e seu final menos impactante. Essas repetições dão menos expressividade a eles, o que, num filme com uma proposta única como essa, soa não tão bem trabalhado. Porém, como o filme não tem grandes pretensões de profundidade e está mais interessado em propiciar uma experiência inusitada e curiosa, isso não chega a ser um grande problema.

Assim, a história de Sinfonia da Necrópole é quase um pretexto para as situações, o que funciona bem porque ela não é deixada de lado, mas sim usada para possibilitar e amparar uma comédia romântica musical passada num cemitério. É um filme muito divertido.

"O cemitério é um empreendimento e é nosso dever nos preparar pra demanda de mais sepultamentos... São novos tempos que vão chegar!"

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