Where Is My Friend's House? ★★★★★

Destaco aqui duas cenas que me são imprescindíveis para pensar o cinema de Kiarostami que veio logo em seguida. A primeira, logo ao se despedir do garoto, a forma como o velho senhor retorna a sua casa, sobe as escadas para o quarto e fecha a janela de sua casa. A segunda, o garoto já em casa, começando a fazer a lição quando a porta se abre subitamente e o vento irrompe nos lençóis pendurados no varal.

Antes de sua complexa temporada de filmes que lhe possibilitam outros filmes, Kiarostami em dois momentos chaves deste aqui (um de pressão e outro de consequência) nos mostra o que lhe interessa: a vida como um todo. São estes sequestros internos que dão para seus filmes o substrato do mundo, do tempo, das coisas como elas são. É tanto o drama e pesar da história principal quanto o que continua além dela, paralelamente em próprio ritmo e beleza. Sem em nenhum momento apenas se eximir diante do que se filma. Estes blocos existem em seus filmes como todo o jogo de atrações e montagem que seus momentos mais célebres de suspense e tensão lhe impõe. Tudo isto complexifica ainda mais os expedientes posteriores de seus filmes e me faz pensar que o interesse de Kiarostami repousa não apenas ao lado de fidelidade e entrega ao local (às pessoas, ao presente, ao mundo), e tampouco apenas ao cinema dentro do cinema, nas suas reflexões e arroubo formais sobre a feitura de filmes. Ele, antes de tudo, se interessa no que cabe no momento.

Uma lição de tudo que precisamos hoje: de como reaproveitar o espaço que se filma e seus meios de produção, da comuta entre inteligência e ideias para melhor eficácia do que se transmite, do choque entre a ficção e o concreto daquilo que se filma, de como pensar toda uma narrativa e sentimentos sem sair do chão e se perder em si ou achismos. Ou seja, de como fazer filmes com muito pouco quando se tem muito a dizer, mostrar e buscar. Tanto na vida quanto no cinema.