Aquarius ★★★★

Poucos filmes conseguem intuir tão bem uma certa identidade brasileira como "Aquarius". Acho que até mais do que "O Som ao Redor", existe aqui uma vontade de se dedicar a uma construção mítica do país que não passa apenas pela tensão de classes, mas que busca uma valoração cultural. Uma valoração que vai além das citações musicais ou de referências mais diretas, mas que de certa forma identifica como alguns valores culturais acabam formando o caráter de uma pessoa ou de um núcleo de pessoas.

A veia política acaba sendo menos didática do que em "O Som ao Redor", mas ainda é um filme um pouco condescendente com algumas coisas, em especial nessa relação interpessoal de classes, nessa trânsito entre uma Clara que vai na festa da empregada doméstica mas que, ainda assim, apesar desse tratamento ultra pessoal, depende diariamente dessa relação de poder. Ou talvez o filme, de alguma forma, até assuma essa problematização consciente da classe média (aquela reunião familiar sobre as babás e sobre a exploração das empregradas em si ilustra isso bem), mas que não deixa de passar uma certa resignação nesse sentido.

E para todos os efeitos, é um filme que sabe lidar com o drama. Toda dificuldade que "O Som ao Redor" tem de conceber uma dinâmica dramática mais elementar (uma funcionalidade básica das suas cenas individuais para além do seu drama espacial), "Aquarius" parece que resolve muito bem. E com certeza a centralização do filme na personagem da Sonia Braga ajuda muito. É das poucas atrizes que consegue de fato segurar o peso que aquele papel demanda.

Dá a impressão que a própria mise-en-scène do Kleber parece que agora encontrou uma dinâmica ideal entre essa abordagem naturalista dos seus personagens e uma aptidão dramática um pouco mais frontal. É um filme de belos enfrentamentos, um filme que alterna tanto momentos desse drama mais elementar muito bem encenado (o embate com a filha, a cena final), como radiografias quase de palmanianas do seu espaço, momentos onde a câmera faz questão de ser sentida, de expor um movimento em prol de um ângulo, de desestabilizar uma lógica física do seu espaço em prol de um efeito inventivo. Enfim, filme de cinema.

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