Parasite ★★★★★

Junto com A Visita (2015), Parasite é um dos filmes dessa década que melhor trabalha com uma variedade de gêneros cinematográficos. O filme começa como uma comédia de costumes que beira o absurdo (remete um pouco até ao cinema de Yorgos Lanthimos), mas acaba transitando entre vários tons (thriller, drama, terror) sem nunca perder a sua unidade dramática.

Uma unidade dramática que tira forças justamente dessa variedade. Na medida em que novas histórias e personagens são incluídos (como a empregada doméstica e o seu marido), Bong Joon-ho insere novos apelos na sua premissa original. Uma prática que poderia, facilmente, resultar em um filme apelativo. Ainda mais se pensarmos na obsessão do diretor por uma constante reinvenção.

O que acontece é justamente o contrário. O filme vai se tornando cada vez mais complexo já que as relações absurdas em que os gêneros se inserem estão sempre muito bem relacionadas a um contexto social que reflete essa aura insensata da realidade sugerida. O absurdo e os exageros não deixam de ser uma das marcas do abismo social em que o filme se debruça.

A família pobre que se infiltra no espaço da família rica trata a encenação - a dissimulação, os novos papéis que cada um desempenha - como uma espécie de luta de classes travada no palco das aparências. Uma luta de classes que usa a potência da imagem e do drama (os personagens escrevem os seus textos e mudam a sua aparência para passar por outras pessoas) como uma forma de reapropriação da propriedade e dos valores alheios.

A grande proposta de Parasite é reconhecer que a ideia do conhecimento, consequentemente a natureza financeira e moral desse conhecimento, não passa de uma questão de performance. No capitalismo imediatista de hoje fingir saber é mais importante do que de fato saber.

Esse jogo pelo imediato e pela dissimulação é muito bem integrado na mise-en-scène do longa. Bong Joon-ho usa uma variedade de artifícios formais (a decupagem dinâmica, o slow motion, a montagem frenética) e narrativos (a história sempre se reinventa agilmente) como um modo dar conta dessa pluralidade.

Ao mesmo tempo que o filme constrói uma reflexão de motivação política, integra apelos de entretenimento e drama na resolução dos seus conflitos. Um equilíbrio que nunca pende para um lado só e concebe uma experiência complexa e emocionante.