Paris, Texas ★★★★★

Gosto demais de jornadas e embora esse filme tenha milhares de coisas escritas sobre, quero falar da jornada deste.

O filme começa nos apresentando um homem vagando. Tu pensa que talvez ele tenha sofrido um acidente ou está perdido no deserto, mas acaba descobrindo que ele está perdido. Perdido a quatro anos, mais precisamente.
Gosto de pensar que a jornada dele até o dado momento do reencontro com o irmão se torna relevante nesse momento. Travis passa a desbravar um novo caminho de forma a se tornar novamente um ser social. De cara ele evita conversar com o irmão e o silêncio dele dá um tom bem monótono ao filme. Travis passa a conversar quando vê a necessidade. A partir desse contato inicial, começamos a ser apresentados à sua história e ter mais um dinamismo.
Travis chega em "sociedade". Se vê como um homem em família e parte desse processo é dado pela cunhada, que muito cuidadosa com o homem, insere-o e situa-o na história da família. Sabemos ai que Travis tem um filho, Hunter, que abandonado pelos pais, vivem com os tios como se fosse filho adotivo. Nesse momento, Travis, que ao se comparar ao seu passado na cena da ponte com um andarilho gritando palavras de ordem e não se vê mais nesse homem, parte em uma jornada para se tornar pai.
Acolhido e aceito pela família e pelo filho, Travis e Hunter partem em uma nova busca, em uma tentativa da unir a família a buscar o conforto que os dois precisam como pai e filho. Acho muito interessante a forma com que Hunter se comporta, um mini adulto, sábio, que entende o pai. Gosto de pensar que esse caminho que os dois travam os aproxima muito, dá pra perceber pela expressão de Hunter, que até o colo do pai procura. Travis tem esperança no primeiro encontro com a mulher, que só revela que há um motivo forte para estarem naquele dado momento.
Gosto da forma com que Travis encontra sua esposa novamente, gosto de saber ainda mais o motivo da ruptura dos dois de modo a Travis perder totalmente os sentidos, os motivos de fuga. Gosto da forma com que ambos encaram seu passado, encarando suas próprias faces, a forma com que a cena é montada, a maneira com que o reflexo um do outro se sobrepõe, onde os dois dividem o mesmo ambiente, a mesma tranquilidade em falar dos seus assuntos. Eh uma das cenas mais intensas que eu vi no cinema, nos últimos anos.
Gosto de saber que naquele momento Travis vira o Pai que ele precisa, o pai que ama e quer o melhor pro seu filho. O pai que não esperamos que Paris, Texas nos apresente.

Um verdadeiro carinho por essa obra que mantem a cadência em ser sensível. Durante toda essa jornada, toda narrativa se mantem calma e doce, mesmo no momento de maior tensão que é no encontro dos personagens principais, há um carinho em manter o melhor dos diálogos, mesmo que aconteça a revelação do pior. Acho que revela o que queremos em casa relacionamento nosso, compreensão e verdade.
Travis compreende quem ele é e qual a sua missão no mundo, nessa jornada em busca da identidade, ele se encontra, e nós compreendemos como a vida pode ser sensível se encarada com calma e reflexão.

Recomendo Horrores.