Too Early/Too Late ★★★★★

O mais centrado nas operações do dispositivo dentre todos os filmes da Huillet e do Straub? Se alguém quiser entender a razão das panorâmicas e da atenção à imensidão das paisagens que pauta boa parte da filmografia dos dois, o ponto crucial é aqui. Desde o início, com a câmera dentro de um carro em trânsito, já sabemos que não estamos mais no território da articulação da forma pelo gesto como era visto em Crônica de Anna Magdalena Bach. Aqui Straub e Huillet vão se ater menos às particularidades da cena do que ao princípio de unidade e de concatenação que o olhar da paisagem pressupõe. O movimento da câmera dentro de um automóvel consegue reiterar muito bem todo esse estatuto da câmera enquanto corpo sensível dentro do magma da cena. O segmento em que a câmera se locomove pela estrada não só reafirma uma autonomia desse dispositivo dentro do ambiente como também implica uma restrição técnica intuída na duração do plano: a cena dura dez minutos, o tempo máximo de um rolo de película, sendo portanto impossível uma prolongação daquele olhar.

Assim como no cinema de James Benning, o olhar sobre a paisagem não leva em conta apenas a ação das intempéries naturais, como o vento, mas também leva em conta os predicamentos políticos e históricos que se abatem sobre aqueles ambientes. A locução em off de textos de Friedrich Engels sobre as imagens de zonas rurais francesas e de Mahmoud Hussein sobre as imagens dos arredores de Cairo operam dois tempos em uma só instância. Talvez este seja também seja o filme do casal que melhor exemplifica seus processos de dissociação de imagem e som, por meio dessa dissociação somos apresentados a dois tempos que resguardam diferenças e semelhanças, tempos que juntos constituem o devir da história. As superfícies mudam, os nomes mudam, as relações se mantêm.

Na primeira parte quando escutamos Danièle Huillet recitando Engels, vemos na zona rural da França nos arredores de Lourletaunier um muro pichado com os dizeres "Os camponeses se revoltarão". Nesse momento Engels narra a derrocada da Comuna de Paris. Tudo na dialética passado e presente que percorre a filmografia de Straub e Huillet aponta para o que está por vir. E nisso retornamos à cena do carro percorrendo a estrada naqueles dez minutos: o olhar da câmera é para frente, de olho nas paisagens que surgem conforme avançamos. Nessa relação de olhares e de memórias, o futuro surge como a maior das perspectivas.

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