The Bandit

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NOTA: Seguindo a colaboração com o pessoal que está realizando o curso online Constelações do Cinema Brasileiro (1898-1992) (no link, o programa completo e as informações de inscrição), transcrevi alguns excertos de um dos textos do curso. Trata-se de uma entrevista de 1974 concedida por Paulo Emílio a Carlos Reichenbach e Inácio Araújo.


[Carlos Reichenbach] Atribuem a você o pensamento de que a Vera Cruz foi um fenômeno nefasto dentro do cinema paulista. Como você vê isto?

Esta posição que você me atribuiu, na verdade não é minha. Frequentemente me atribuem esta ideia, este pensamento. Em grande parte, como eu gosto muito do Cinema Novo, as pessoas têm frequentemente a impressão de que não gosto do resto. O que não é verdade. Acho a Vera Cruz um fenômeno positivo, nesse sentido geral em que eu acho positivo qualquer filme que seja feito aqui. Isto por um lado. Por outro lado, eu já tive a oportunidade de observar um fenômeno no qual eu gostaria de me aprofundar um pouco mais: a reflexão sobre isto que é uma espécie de incapacidade nossa de copiar. O que me parece bom sinal. Sinal de uma personalidade nacional, que é difícil de definir, mas que sentimos que existe. Então, surge um fenômeno como a Vera Cruz, em que os modelos são estrangeiros, os quadros fundamentais estrangeiros, ou formados no estrangeiro, mas pelo simples fato do filme ser feito aqui, não só eles obtêm uma função industrial a qual dou muita importância, mas mesmo culturalmente eles acabam sendo uma manifestação nossa. Os filmes da Vera Cruz ainda estão muito próximos de nós, sobretudo de mim, talvez os mais jovens vejam com outros olhos. Mas se examinarmos os filmes brasileiros feitos há mais tempo, neste mesmo espírito de cópia dos modelos estrangeiros e veremos como, com o passar do tempo, e até que ponto, eles ficaram brasileiros, vemos o que havia de brasileiros neles emergir e ficar muito mais importante do que aquilo que se tentava copiar. É um fenômeno muito curioso. A começar pelo Humberto Mauro, que é um autor que eu estudei meticulosamente durante algum tempo. Nós vemos sempre Humberto Mauro fazendo filme tendo em vista modelos estrangeiros, pressionado por seus amigos do Rio de Janeiro, fato que aos nossos olhos de hoje aparece como elemento de nossa cultura, fenômeno tão profundo quanto a manifestação dessa cultura em outros terrenos. De forma que não acho que a Vera Cruz foi um mal, absolutamente, eu acho que foi um bem, que inclusive foi um sintoma fantástico. Sintoma que revelou nossa situação real. Porque o que é a Vera Cruz? A Vera Cruz é finalmente aquela coisa pela qual os velhos sonhadores do cinema brasileiro esperavam da burguesia Paulista, da grande indústria Paulista: o interesse pelo cinema. Então temos empresários como Zampari, um grande industrial como Ciccilio Matarazzo interessando-se por cinema. E quando todos diziam: agora vai, não foi.

Este fenômeno dos grandes industriais nossos tentarem fazer cinema resultou de quando os pequenos artesãos tentavam. Ambos acabaram sufocados pelo cinema estrangeiro e seus interesses. Havia aquela ilusão que foi permanente no Brasil desde o início até a Vera Cruz (e depois da Vera Cruz é que entenderam um pouco mais): a Ilusão de que o problema aqui seria produzir filmes. E que para os filmes produzidos os cinemas estavam ali, e que os cinemas existem para passar fita, inclusive as nacionais. Ficou evidenciado com o fenômeno da Vera Cruz que o negócio não é assim, ficou evidenciado que os cinemas estão aí para passar filmes estrangeiros. E quando aparecem fitas nacionais elas são incômodas.

Com relação à Vera Cruz ainda é um assunto que eu estava pensando. Outro dia fui ver Candinho, do Mazzaropi, uma produção da Vera Cruz, dirigida pelo Abilio Pereira de Almeida. Fui em um sábado no Cairo. Entrei numa fila imensa, para meu prazer, muito maior que a fila do Cidadão Kane. Público eventualmente diferente daquele do Cidadão Kane, um público também simpático e que também me interessa muito. Fiquei pensando: pena que a Vera Cruz descobriu o Cangaço e o Mazzaropi tarde demais. O drama Da Vera Cruz foi querer dar as costas ao que se fazia no Rio de Janeiro, com sucesso, no momento em que ela foi fundada. É curioso notar que o fato que entusiasmou os industriais de São Paulo a fazer cinema foi quando eles viram que o cinema estava dando dinheiro ao Luiz Severiano Ribeiro. Ao mesmo tempo, enquanto eles seguiram esse exemplo, eles deliberaram fazer da produção da Vera Cruz algo radicalmente diferente do que se fazia no Rio. Esta tem sido uma posição tradicional do cinema brasileiro, inclusive do Cinema Novo, o fato de querer ser uma coisa inteiramente distinta da chanchada, dando as costas a esta na tentativa de fazer alguma coisa diferente. Este foi realmente o erro da Vera Cruz.

E o Abilio e os outros tivessem no momento em que estavam preparando a Vera Cruz, ao invés de imaginar coisas como Caiçara e Ângela, tivessem se preocupado em procurar um ator que fosse uma emanação deste teatro ligeiro, do mambembe brasileiro, como o Mazzaropi, eles teriam encontrado uma direção realmente fecunda. Isto por um lado. Por outro lado, se aquela descoberta mais ou menos ocasional, devido à teimosia do Lima Barreto, do veio do cangaço tivesse acontecido antes, com essas duas direções — uma direção Mazzaropi e uma direção cangaço — eu penso que a Vera Cruz poderia ter enfrentado melhor a todas as pressões do comércio cinematográfico estrangeiro no Brasil. De maneira que estes fatos, eu penso ser importante destacá-los.

Quanto ao Cinema Novo, por exemplo, o fato de querer se distanciar da chanchada inteiramente, foi algo que eu penso não ter feito bem ao Cinema Novo, inclusive. O Cinema Novo, em seguida, voltou atrás com relação a isto, entendendo que a chanchada tinha uma significação muito mais válida do que parecia a primeira vista. O patrono do Cinema Novo, Nelson Pereira dos Santos, já tinha sentido isto. Lembrando-se bem de Rio 40 Graus, vemos que toda aquela passagem da chegada do político importante do Norte (um político que vem ao Rio de Janeiro e tal, que querem fazer umas “gravações” com ele e encarregam uma moça para conquistá-lo e coisa e tal), todo o tratamento desse tema no Rio 40 Graus é um tratamento de chanchada e que funciona muito bem. Na Vera Cruz, às vezes, sobretudo nos papéis cômicos, quando a chanchada espontaneamente emerge, vemos bem como os filmes melhoram sendo revistos hoje.

De forma que aquela recusa para com a chanchada pelo que ela tinha evidentemente de popularesco, de frequentemente vulgar, de tolo etc., devia fazer com que nós não víssemos mais nada, porque qualquer coisa que realmente tem sucesso nunca é necessariamente pelo que ela tem de pior. Uma coisa que tem muito sucesso, se nós examinarmos mais de perto, nós acabamos talvez vendo que ela tem sucesso devido a algumas coisas boas que ela tem. Visão pessimista das coisas, achar que as coisas têm sucesso devido ao que ela tem de emprestado. Vendo filmes vulgares e bossais, por exemplo, como Os mansos, e anotando durante a projeção os momentos de riso e de gargalhadas, vemos que os momentos de maior riso correspondem aos melhores momentos do filme.

De forma que este comportamento é uma coisa que devemos ter em vista em relação a esta produção pela qual temos um certo desprezo. A coisa histórica, de grande espetáculo, tem evidentemente muitos aspectos ridículos. Quando pretendem fazer uma vinculação com uma certa mentalidade hoje mais corrente, oficial, do que seja o Brasil, essa coisa do milagre brasileiro, essa coisa toda.

Mas vendo estes filmes na medida em que eles satisfazem uma educação cívica primária, que eles satisfazem essa média que se recebe no curso primário, sobretudo nos dias de grandes datas nacionais, ficando como uma espécie de tecido básico de toda a população, observando que algo que faz parte da nossa cultura, da nossa cultura popular e frequentemente na medida em que isto emerge e aparece nos filmes, isto torna-se algo válido inclusive com valores poéticos. Eu senti isso, inclusive no filme por tantos motivos ruins, como é Independência ou morte.


[Carlos Reichenbach] Se você consegue ver até certo nível em filmes como Independência ou morte, como você vê filmes como, por exemplo, As armas?

As armas é um filme que vi que realmente não me lembro bem, pis não fiz anotações a respeito e não discuti com os alunos. Do que me lembro é um filme de aventura que não segue muito as regras do jogo dos filmes de aventura, e num momento destes, já se começa então a diminuir o meu interesse, porque eu sinto neste momento na certa incapacidade de copiar.

Agora, o tratamento de alguns temas que tem uma certa seriedade afinal de contas, temas da vida contemporânea de passado recente, a ideia de que o tratamento destes temas de uma maneira distorcida possa fazer mal, eu não participo disto, porque a na maior parte do tempo no cinema brasileiro mais medíocre uma tal ingenuidade que não faz mal para nada e a ninguém. Isso é um ponto sobre o qual um dia eu gostaria de pensar mais metodicamente.

Há uma quantidade de filmes de má-fé que nós vemos, que aborda temas de uma certa seriedade, mas numa má-fé completa como As depravadas. Mas há uma tal ingenuidade nesses filmes ruins que qualquer “veneno” real que esses filmes pudessem ter acabam tendo nenhuma eficácia como também os filmes feitos, por exemplo, com intenções pornográficas . Pensando bem, esses filmes do chamado cinema pornográfico brasileiro, cinema erótico brasileiro, são pornográfico só na intenção. Por enquanto não foi feito no Brasil nenhum filme pornográfico. Mesmo vendo os filmes Antes de irem a censura, vemos que eles não são pornográficos, inclusive dando a palavra pornografia esta conotação pejorativa, como algo realmente capaz de envenenar a sociedade. Como nos outros filmes mal-intencionadas no terreno (ideias, sexo), alguma espécie de curiosa saudabilidade que faz com que o “veneno” intencional não se inocule nunca. Eu nunca vi nesses filmes brasileiros de piores intenções que tivessem realmente uma espécie de atmosfera pestilencial, como vemos frequentemente em filmes estrangeiros muito bons.

Há na nossa vida cultural, em qualquer das suas expressões, uma incapacidade de... Decadência. O que me parece que não é mal como sintoma.

[...]

[Inácio Araújo] A publicação de crônicas em jornais e as pressões existentes é um problema “cultural” em relação ao cinema brasileiro?

Pensar na má vontade em relação a cinema brasileiro como uma coisa muito deliberada ou de má-fé é um absurdo. Porque a norma e o normal numa série de círculos de elites, que são as redações de jornais, a direção dos jornais, é as pessoas terem desprezo por cinema brasileiro, porque é isso que acontece. Quando falamos em colonização, cinematograficamente as nossas elites são muito mais colonizadas que o povo. O povo guarda, apesar de tudo, uma série de aspirações propriamente nacionais e que as elites perderam e para o qual vão encontrar muita dificuldade para reconquistar. Ao passo que as camadas plebeias, pela força das coisas, pela ignorância, pela incapacidade, pela impossibilidade de entrar em contato com os produtos mais finos da cultura estrangeira, eles guardam uma espécie de aspiração e de sede por um tipo de cultura que seja próximo e que frequentemente o cinema brasileiro satisfaz.

Isso vemos na história do cinema brasileiro. Um momento de grande crise no cinema estrangeiro, que naquele tempo era fundamentalmente o cinema norte-americano, que foi na passagem do cinema mudo para o cinema falado. Criou-se assim um certo vácuo cinematográfico aqui no Brasil, e é curioso como esse vácuo foi rapidamente preenchido por dois gêneros: um era o cinema caipira com Genézio Arruda e o outro um gênero vinculado diretamente a nossa música popular. De forma que nós sentimos claramente nesses momentos como o cinema estrangeiro ocupa e sufoca certas expressões culturais nacionais, que se tiver uma vez elas se manifestarão. Se manifestarão de início em nível bastante medíocre, plebeu, mas que com uma continuidade assegurada pode inclusive virar uma expressão que satisfaça as outras camadas da nossa sociedade.

O que acontece com a nossa música popular poderia muito bem acontecer com os nossos filmes. Quando nós falamos em substituir o cinema estrangeiro pelo nosso não se trata de imaginar que a necessidade de então só se fazer filmes ótimos. Não é verdade que só filmes brasileiros ótimos poderão substituir o leque do cinema estrangeiro, que vai de filmes péssimos até filmes ótimos. O nosso propósito é substituir este leque por filmes nossos, que irão também dos péssimos até os ótimos, mas que serão brasileiros.


(Excertos de Eu só gostava de cinema estrangeiro, entrevista de Paulo Emílio concedida a Carlos Reichenbach, Inácio Araújo e Eder Mazini, originalmente publicada em Cinegrafia, julho de 1974).