The Dare

The Dare

[...] trata-se talvez do filme mais importante apresentado durante a I Semana do Cinema Brasileiro [1965].

A obra de Paulo César Saraceni é indefensável. Adianta pouco tentar demonstrar suas qualidades àqueles — a grande maioria — que não a aceitam. Resta promover uma maior aproximação entre O desafio e os seus desafetos através do aprofundamento da hostilidade. Essa operação é fácil. Nunca vi um não gostar tão laborioso, preocupante e tenaz como o provocado por O desafio. O filme penetra nas pessoas e as verruma por dentro. É revelador o que aconteceu a um casal de jornalistas de Brasília: marido e mulher odiaram a fita num acordo total, discutiram a noite toda e de manhã decidiram que urgia revê-la.

História de um jovem intelectual de esquerda perdido na existência após os acontecimentos políticos e militares de março e abril do ano passado, expressão política em termos coletivos, é caminho certo para a decepção. Igualmente inútil é considerar simples pretexto o contexto histórico onde evoluem os personagens. Uma abordagem mais fecunda seria considerá-lo um filme-conversa na linha sugerida por Integração racial do próprio Saraceni ou pelas produções de Thomaz Farkas. Defrontamo-nos, porém, aqui com um filme-conversa reconstituído, no qual o documento é depoimento. Essa expressão, aliás, não satisfaz, pois implica um distanciamento lúcido e concertado de que não há traço em O desafio. “Confissão” seria mais adequada se a palavra não carreasse ideias de remorso. O motor que desagrega o universo ideológico e amoroso do herói de Saraceni não é o sentimento de culpa. Ele é reduzido à impotência por relações concretas de vida, mas permanece intacto e disponível. Seu futuro dependerá da exata natureza da fragilidade interior secretamente presente durante todo o percurso dramático. O filme confirma Paulo César Saraceni como o mais pessoal e intransigente autor de filmes que o Brasil já conheceu. Não é, porém, a intransigência e a personalidade que dificultam a comunicação do cineasta com o grande público, mas sim uma defasagem bastante semelhante à do herói de O desafio em sua prática de vida.


(Excerto de Novembro em Brasília, originalmente publicado em O Estado de S. Paulo, Suplemento Literário, 18 dez. 1965.)

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